quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Verissimo

Esperando o fim

Como você deve ter lido, o mundo pode acabar por estes dias. O tal acelerador de partículas com que pretendem recriar o nascimento do Universo já está em funcionamento e uma das conseqüências improváveis mas possíveis do experimento é que ele crie um buraco negro que nos engolirá, você, eu e toda a vizinhança. Se você está lendo isto é sinal de que ainda não aconteceu, mas acho que devemos nos portar como se o fim estivesse próximo. Eu, por exemplo, já suspendi o pagamento de todas as minhas contas, mas você pode tomar medidas mais nobres - e, no caso de haver vida depois do buraco, mais rentáveis aos olhos de Deus - como fazer a paz com seus desafetos, confessar seus pecados e devolver seus CDs emprestados.
E tente ver o lado bom da coisa. A Terra desaparecer num vácuo será terrível, claro. Por várias razões, e não apenas porque ninguém saberá como termina a novela. Mas pense em como a possibilidade da catástrofe torna insignificante coisas como os seus problemas de pele ou a má fase do Internacional. Você perderá a vida mas ganhará uma noção clara da importância relativa das coisas, mesmo que seja por pouco tempo.
Na hora de se redimir das suas calhordices para enfrentar o fim do mundo, no entanto, é importante ter cuidado e não fazer como o dr. Crispin, que quando sentiu que seu fim se aproximava reuniu a família em torno do seu leito de provável morte e confessou tudo, tudo. A amante, a outra família que sustentava com privações da família legítima, tudo. A quase viúva, compungida, perdoou o dr. Crispin e rezou por ele. Mas aconteceu o seguinte: o dr. Crispin não morreu. Viveu mais quinze anos. Quinze infernais anos, durante os quais o mínimo que ouvia da mulher era “Foi a minha reza que te salvou, cretino”, e os filhos lhe viravam a cara. Prepare-se para ser tragado pelo buraco negro, portanto, mas sem esquecer que é tudo conjetura, que nem os cientistas sabem o que o acelerador vai produzir e tudo pode terminar num humilhante traque, e com você obrigado a dar explicações embaraçosas (“Não é verdade que eu faço xixi na piscina”).
Mas não há por que não aproveitar a perspectiva do fim do mundo para fazer, ou pelo menos propor, o que sempre quisemos fazer, antes que seja tarde. Tudo que a cautela, a preguiça ou o senso de ridículo, sem falar na moral e nos bons costumes, nos impediam de tentar. Estou preparando um e-mail que circulará entre alguns nomes escolhidos (não os citarei para evitar ressentimentos) e que começará com considerações filosóficas sobre os tempos e a moral, e como tempos extraordinários devem apagar barreiras que inibem e separam. Relembrarei outros tempos em que a perspectiva do desastre afetou o comportamento humano, como os frenéticos anos 20 e 30, e citarei o boato, nunca desmentido pelos que participaram, da orgia terminal no Titanic a caminho do fundo. Jurarei não contar nada do que se passar entre nós depois, não por discrição mas por absoluta falta de sinais vitais. E terminarei com o nome do motel, a data e a hora para o nosso encontro, advertindo que o choque de partículas que detonará o mundo pode acontecer a qualquer minuto e não teremos muito tempo. Se aparecerem só três - ou, vá lá, duas - terá valido a pena.
FONTE: OESP - 14/09/08

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

CLÓVIS ROSSI

"Fast-food" político (ou jornalístico)

SÃO PAULO - Sarah Palin, a candidata a vice na chapa do republicano John McCain, parece estar fazendo percurso inverso ao de Barack Obama, o candidato democrata. Obama saiu de semidesconhecido no início do ano para semideus ao vencer as primeiras primárias, para voltar à Terra agora.
Palin também era desconhecida, mas, em vez do endeusamento, sofreu a satanização por mil problemas que o leitor certamente terá acompanhado no belo trabalho do pessoal da Folha que está nos Estados Unidos. Bastou um discurso, no entanto, para passar de eventual lastro a um ativo para McCain."Eletrizou" a convenção republicana, diz o "Washington Post". Toda a mídia que consegui ler ontem vai mais ou menos por aí.
Posso estar enganado, mas temo que a cultura "fast-food" que ganhou o mundo esteja contaminando perigosamente o jornalismo. Ou então é o público em geral que muda de humor de um momento para outro, sem que fatos marcantes estejam na origem da mudança, ao contrário do que acontecia em tempos menos céleres, de informações menos instantâneas.
Não é fenômeno restrito aos EUA. Nicolas Sarkozy elegeu-se presidente da França há um ano e meio, tratado como um misto de Charles de Gaulle com Napoleão Bonaparte, dois dos símbolos da "grandeur" da França eterna.Em meses, seu prestígio já estava pouco acima do rés-do-chão, apesar de sua hiperatividade e de nenhum crime no período. Idem para Gordon Brown, premiê britânico, transformado de solução em problema em muito menos tempo ainda.
De duas, uma: ou os fatos são mesmo velozes demais para que os políticos os processem de forma a adaptar-se a humores rapidamente mutantes, ou nós, jornalistas, estamos correndo demais para emitir juízos de insustentável leveza no tempo. Você decide.
FONTE: FSP - 05/09/08

MELCHIADES FILHO

Grampo legal

BRASÍLIA - Ainda que o futuro possa lhe reservar algum tipo de constrangimento, o governo só tem a comemorar com a escandalização do uso de escutas telefônicas. Confira o que de concreto ocorreu desde o começo das denúncias de desrespeito às liberdades individuais e das reações indignadas:
1) Foi escanteado o delegado que pretendeu investigar os negócios de Daniel Dantas, as relações íntimas do empresário com o Planalto e o acordo de indenização que permitiu ao governo levar adiante a idéia de criar a supertele nacional.
2) A Polícia Federal repaginou a Operação Satiagraha. Fechou foco nos indícios de fraude financeira do Banco Opportunity e esqueceu outras ambições do inquérito original, como tráfico de influência e a fusão da Brasil Telecom com a Oi.
3) Dantas e seus principais assessores saíram da prisão. Não têm mais motivos para abrir a boca.
4) Lula conseguiu nomear o quinto conselheiro da Anatel para dar o voto de minerva em favor da BrOi.
5) Foi afastado o diretor que construiu a "PF republicana", aplaudida por não discriminar investigados -o que possibilitou que o irmão do presidente caísse num grampo pedindo "dois pau pra eu".
6) A pretexto de impedir exageros de arapongagem, a PF recebeu ordens para tratorar a corporação e centralizar a inteligência. A apuração do dossiê produzido na Casa Civil contra FHC foi abandonada.
7) Um ex-funcionário de Dantas assumiu o comando da Abin.Resumo: o Planalto não só preservou a negociação (e os negociadores) da BrOi como diminuiu a possibilidade de voltar a ser incomodado por escutas telefônicas.Judiciário, Legislativo e sociedade civil exigiram o direito à privacidade. Com a degola de Lacerda e Protógenes, Lula garantiu o dele.
Talvez esteja aí a explicação para a reação enérgica e rápida de um presidente que costuma defender os colegas pilhados em atos ilegais e recomendar paciência nas crises.
FONTE: FSP - 05/09/08

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Verissimo

Enquetes
O que você pensa sobre o uso de algemas?
- Acho que depende. Há circunstâncias em que o uso de algemas se justifica, outras não.
- Por exemplo?
- Bom, tomemos o meu caso. Eu tenho sempre um par de algemas à mão, o que não significa que vá usá-las. Na hora é que eu decido. É uma coisa muito subjetiva. E depende muito do tipo da pessoa, claro. Do subjugado.
- Você estuda o subjugado antes de decidir.
- Não é uma questão de estudar, porque muitas vezes nem dá tempo. É preciso decidir logo que forma de submissão será usada, para não se perder tempo. E muitas vezes o próprio subjugado é que pede.
- O quê? O subjugado tem escolha?
- Às vezes. A maioria gosta de ser surpreendida.
- Não sei se eu estou...- É como bolinha japonesa. Você precisa ter sensibilidade para saber se é caso de sugerir bolinhas japonesas ou não. Mas se ele pedir bolinhas japonesas, então já é meio caminho andado, por assim dizer.
- Bolinha japonesa?!
- Ou chicote. Ou cera quente. Ou o cone do Marques.
- Espera aí. Acho que está havendo um mal-entendido...
- O cone do Marques muita gente nem sabe que existe. Você precisa propor, mostrar como funciona e perguntar se o cara prefere com ou sem estrias.
- Obrigado.
- Quanto às algemas, o mais prático é sacudi-las na frente dele para ver qual é a reação. Se ele disser “Sim, sim!”, você prende os pulsos dele na cabeceira da cama com as algemas e...
- Obrigado!
Que novas modalidades devem ser aceitas nas Olimpíadas, na sua opinião, para aumentar as chances de o Brasil ganhar medalhas de ouro? Assinale quantas quiser.
( ) Futivolei
( ) Frescobol
( ) Dama
( ) Par ou ímpar.
( ) Pauzinho (também chamado Porrinha)
( ) Basquete de escritório (ou bola de papel ao cesto)
( ) Pebolim (ou Totó)
( ) Bola de gude
( ) Buraco (ou Canastra, ou Biriba, ou Mico Preto, ou Burro em Pé)
( ) Cutucar abacateiro (com vara)
( ) Bater figurinha
( ) Virar bolachas de chope com um golpe (e pegar no ar)
( ) Salto a distância sobre fossa aberta
( ) Sinuca
( ) Botão
( ) Ginástica orçamentária (para pagar as contas)
( ) Cinco Marias
Na próxima eleição para vereador, baseado na propaganda da TV e de acordo com seus princípios políticos, você definitivamente NÃO votará em candidato que
( ) se pareça com aquele seu tio que era kardecista mas torturava gato
( ) fique olhando para a câmera como se acabasse de ser flagrado fazendo xixi nas plantas
( ) diga “não obstante”
( ) pisque muito
( ) prometa a paz no Oriente Médio
( ) apareça com a mãe ou com o cachorro
( ) toque O Sole Mio no serrote
FONTE: OESP - 31/08/08

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Denis Lerrer Rosenfield

O bem

Você quer que o Estado determine o que você deve fazer? Você pensa que o Estado sabe melhor do que você o que é o seu próprio bem? Você acha que o Estado sabe escolher melhor do que você o que são os seus valores morais e pessoais? Assim colocadas, essas perguntas remetem a questões centrais de filosofia moral, que acarretam conseqüências políticas das mais relevantes. No entanto, poderia também aflorar uma outra questão, relativa à sua atualidade, como se fosse um mero problema teórico, sem importância para a vida de cada um. Engana-se quem pensa assim.
Gradativamente, o Estado brasileiro, em suas várias esferas, está-se impondo cada vez mais em detrimento das escolhas individuais e, sobretudo, de considerações morais, que deveriam nortear a subjetividade de cada um. Trata-se da autonomia que cada um tem de decidir por si mesmo, exercendo uma discriminação racional daquilo que é melhor para si. Tem ocorrido freqüentemente uma suposta coincidência entre o que o indivíduo considera para si o bem e o que o Estado lhe apresenta enquanto tal, como se o politicamente correto fosse o caminho que permitiria essa identificação. Há aqui uma armadilha.
O Poder Executivo, em particular, interfere progressivamente na vida de cada um, seja por atos administrativos como decretos, portarias, resoluções e instruções normativas dos mais diferentes tipos, seja por medidas provisórias, seja ainda por projetos de lei que vão na mesma direção. Por exemplo, uma alteração, via administrativa, de uma alíquota do Imposto de Renda tem incidência direta nos rendimentos individuais e familiares, como se o Estado soubesse fazer melhor uso dos bens particulares. Ocorre uma transferência de bens materiais, de propriedades, que surge travestida de uma justificativa de ordem moral, ancorada na concepção de que o Estado sabe moralmente melhor do que qualquer um o que é o seu bem próprio. O Incra, por sua vez, determina, em lugar dos assentados, o que é melhor para eles, interferindo diretamente no seu cultivo e, em última instância, em sua capacidade individual de escolha, como se um assentado fosse um tolo que deveria apenas seguir as diretrizes desse órgão estatal e dos movimentos ditos sociais. Assim, o cultivo de eucaliptos é proibido pelo Incra porque contraria as suas orientações, independentemente de que ofereça melhor rendimento aos assentados do que outros cultivos ou lavouras. Por que não poderia um assentado escolher o cultivo que lhe dê maior renda e usufruir seus resultados?
Tal “normalidade” não surge como um tsunami, mas em volumes crescentes, que vão ganhando consistência e poder. O caso da saúde é particularmente revelador. Em nome dela, há propostas de aumentos de contribuições, restrições ao fumo, mesmo em recintos que afetam somente os que usufruem o ato de fumar, à ingestão de bebidas alcoólicas ou à publicidade de medicamentos. O Estado apresenta-se como o grande patrocinador da saúde, quando está patrocinando somente a si mesmo. E o faz em nome do bem de cada um. Quem lhe confere esse poder?
Observe-se que, em nome da saúde, há projeto em curso para ressuscitar a CPMF, fortemente rechaçada por toda a população brasileira. Como os brasileiros são, hoje, contrários ao aumento de impostos, este aparece disfarçado de figura moral do bem de todos. A moral surge como justificativa de um simples acréscimo da arrecadação tributária! Da mesma maneira, por que deveria uma autoridade governamental banir o fumo em locais especialmente destinados a isso, sem afetar os não-fumantes? Não sabe cada um discernir o que é melhor para si, sem o auxílio da bengala estatal? Por que deveria o Estado determinar a “lei seca”, graças a uma nova regulamentação apresentada com estardalhaço, como se fosse a salvação da saúde nacional? Por que o Estado deveria regulamentar a publicidade de medicamentos de livre compra em farmácias? Se a compra pode ser feita sem receita, onde estaria o seu dano para a saúde? Amanhã, vai o Estado legislar ainda mais no lar de cada um, como já começa a fazer? Onde reside o limite, se o solar da casa já foi transgredido? Cabe ao Estado informar sobre os efeitos nocivos de determinados hábitos para a saúde pessoal. Não lhe cabe tomar o lugar da escolha individual.
Levemos esse argumento ao seu extremo. Consideremos que a ingestão de colesterol e de gorduras saturadas fazem mal à saúde. Pesquisas científicas referendariam essa avaliação. Seguir-se-ia daí que seria função do Estado decidir o que cada pessoa deveria, por dia, tomar de sorvete ou comer de carne? Os indivíduos não poderiam tomar sorvete ou comer carne além de uma determinada quantia? Haveria punição para os transgressores? Assim apresentada, a questão parece absurda, porém ela é, em seus efeitos, terrivelmente verdadeira. Não faltam, inclusive, pseudopesquisas que procuram justificar “cientificamente” essas medidas. Na verdade, a sua justificação reside numa determinada noção do bem de natureza propriamente política, estatal, que se reveste de científica. Séries estatísticas, por definição, podem ser feitas de quaisquer coisas, bastando relacioná-las, sem que daí siga necessariamente uma relação causal. Tomemos o caso da proibição de ingestão de bebidas alcoólicas por condutores de veículos. A redução da mortalidade nas ruas e estradas tem sido atribuída a essa lei. A correlação estabelecida se faz entre a nova lei e a redução da mortalidade. Por que não uma outra correlação, entre a fiscalização rigorosa da aplicação da lei, que poderia ser perfeitamente a anterior, e a redução da mortalidade? Se afrouxar a fiscalização, haverá provavelmente um aumento de acidentes automobilísticos, apesar da lei seca. No entanto, quando isso vier a ser comprovado, o efeito midiático buscado já terá sido atingido: o Estado sempre sabe o que é melhor para o indivíduo!
Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br
FONTE: OESP - 01/09/08

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Muito além dos grampos
SÃO PAULO - Eu desconfio muito dos veementes, dizia Nelson Rodrigues, ele próprio o mais hiperbólico dos nossos escritores, a quem nunca faltou, como tempero da vocação trágica, o veneno da ironia. E como toda unanimidade não é apenas burra mas sobretudo perigosa, desconfiemos dos veementes.
No caso, dos que estufam o peito para nos alertar que o Estado de Direito está sob ameaça, o que tem ocorrido sempre que alguém da turma da cobertura vai preso. Quantos condenados existem hoje no país que já cumpriram sentença, mas seguem em cana? Alguns milhares. E quantos mofam no xilindró à espera de julgamento, em prisão temporária ou preventiva? Estima-se que 30% da população carcerária, algo como 150 mil pessoas. Quem se escandaliza? Nem todos têm a mesma opportunity perante o STF. Foi preciso que os arbítrios da polícia chegassem ao topo do edifício social para que os arautos da legalidade começassem a se movimentar, veementes, indignados. Em pulso de preto, algema nunca foi abuso, mas pulseira de luxo. Está certo Joaquim Barbosa quando diz que certa elite monopoliza a agenda do Supremo.Sim, é grave, é gravíssimo o grampo contra Gilmar Mendes. E também muito estranho: é a primeira vez que a revelação do conteúdo de uma escuta telefônica ilegal é boa para os dois grampeados.
Muito se falará ainda desse caso. Por ora, há coisas nebulosas e muitos interesses em jogo a serem esclarecidos. A Abin terá de se explicar. É provável que rolem cabeças.Sobre o delegado Protógenes e seus métodos, vale repetir: o inquérito que comandou é obtuso, leviano e flerta com a delinqüência em várias das suas conclusões. Tenhamos isso sempre em mente. Mas sem permitir que, em nome da boa causa contra as ilegalidades da polícia, os veementes invoquem uma hipotética ameaça institucional para preservar privilégios e perpetuar a impunidade de uma casta que vive zombeteira acima da lei, como é óbvio ululante há 500 anos.
FONTE: FSP - 01/09/08

RUY CASTRO

Algo de podre

RIO DE JANEIRO - Os colunistas sociais e as revistas de moda e de celebridades fariam bem em dar plantão às portas de Bangu 8, o presídio de segurança máxima na zona oeste do Rio em que estão hospedados o ex-banqueiro Salvatore Cacciola, o ex-deputado e ex-delegado Álvaro Lins e outros políticos e policiais suspeitos de ligação com mutretas e milícias. Com tantos bacanas sob o mesmo teto, os dias de visita -segundas e sextas-feiras- são um desfile de carros blindados e peruas "heavy metal", estas valendo seu peso em quilates. O sistema prisional brasileiro, mais afeito a abrigar pés-de-chinelo, não está habituado a receber pessoas da alta, mesmo que o dinheiro tenha entrado há pouco tempo em suas vidas e elas ainda pensem que é chique comer lagosta.
A comida que os parentes têm levado para seus presos ilustres sai dos restaurantes vips da Barra. Destina-se a compensar o boião -arroz, feijão, macarrão e músculo- que a cana serve aos coitados durante a semana. Não há nada de ilegal nisso e, de fato, deve até fazer mal mudar de dieta tão de repente.
Acontece que o serviço de inteligência de Bangu 8 detectou a presença de lagosta no menu do ex-banqueiro Cacciola fora dos dias permitidos. Não apenas isso, como suspeita que os outros presos cinco estrelas também estejam pedindo haddock e salmão todos os dias àqueles restaurantes, excedendo os R$ 100 semanais que têm direito de gastar na prisão. Ora, R$ 100 era o que eles davam de gorjeta ao manobrista quando entravam nos restaurantes pela porta da frente. O problema é se, além de a prisão não ter alterado seus hábitos alimentares, os inquilinos de Bangu 8 continuarem a gerir seus negócios e empresas, de dentro para fora do presídio. Nesse caso, há algo de decididamente podre dentro do crustáceo -e do presídio.
FONTE: FSP - 01/09/08

MARINA SILVA

Amadurecer pela raiz
NA ÚLTIMA quarta-feira, quando Joênia Carvalho Wapichana subiu à tribuna do Supremo Tribunal Federal para defender a demarcação contínua da reserva Raposa/Serra do Sol, senti um grande orgulho do Brasil.
Pensei no caminho percorrido até Joênia, primeira advogada índia a fazer uma defesa oral no Supremo, assumir simbolicamente o pleno lugar dos indígenas na nossa identidade.
Apesar de séculos de erros e de violência, que quase levaram ao extermínio de nossas populações originais, estamos no rumo certo. Só faltava assumi-lo de vez, e o relatório consistente, contundente e bem informado do ministro Carlos Ayres Britto, um marco na mediação do Estado em questões de terras indígenas, o fez por nós, com muita grandeza. Depois dele, não há como não entender as razões para assegurar aos índios seus territórios originários. Por outro lado, será difícil argumentar a favor da pretensão de assimilá-los à força, para atender a interesses circunstanciais.
Naquela sala podia-se ver o recorte bom de um Brasil democrático, em que as partes de um conflito de mais de 30 anos submetiam-se à Justiça para dirimi-lo, em vez de apelar a desmandos de terra sem lei.
Não há, por enquanto, vitória de nenhum dos lados. Ambos devem se empenhar para evitar um clima de confronto ou provocações que tentem instalar o caos com o objetivo de pressionar o julgamento.
Aliás, fazê-las seria um equívoco, revelador da dificuldade de perceber o patamar de qualidade estabelecido pelo relator, para aquém do qual ninguém poderá mais recuar. Seu voto não foi contra uma das partes, foi em favor de um conceito de nacionalidade, no qual cabe toda a diversidade de que somos formados e o respeito devido a cada uma das partes que a compõem. Saí do STF sentindo-me parte de um país maduro, mas visto não a partir da madurez do fruto. É um amadurecimento pela raiz. A raiz fincada na terra que alimenta e dá segurança. Não é à toa que os índios são uma de nossas raízes, assim como não deve ser à toa que nossa dificuldade para aceitá-los como parte de nós mesmos se expresse quase sempre em disputas pela terra.
É um engano pensar que poderemos sobreviver à destruição de nossas raízes. Basta olhar a triste e pobre periferia das cidades, retratos da desagregação e da humilhação social e cultural de nossas raízes negras e índias. Os descendentes dos desterritorializados originais. Ainda bem que começamos a entender que a determinação de mudar este destino de injustiças nos faz, a todos, brasileiros melhores e pessoas mais conciliadas com sua condição humana.
FONTE: FSP - 01/09/08

Claudia Costin

O Estado e a violência

Em matéria recente sobre diagnósticos e propostas de campanha para as eleições deste ano, o Estadão comenta a contínua queda dos índices de homicídios na cidade de São Paulo. Os números são surpreendentes: passamos de 52,58 mortes por 100 mil habitantes, em 1999, para 14 no ano em curso. A melhoria dos índices, comemorada pelo governo federal como resultante da melhoria da economia e pelo governo estadual paulista como fruto do esforço em aprimorar o desempenho das polícias, é conseqüência, na verdade, de múltiplos fatores, que certamente incluem esses dois. A pobreza diminuiu, a classe média aumentou, assim como o emprego formal, e a polícia conta, de fato, com instrumental melhor para sua atuação.Esta melhoria merece ser comemorada, mas deve trazer, como bem mostra a matéria do jornal, um aprofundamento da análise que permita uma intervenção pública mais efetiva. Há uma regionalização do crime, em que bairros com pior infra-estrutura são os que apresentam maior número de mortes violentas. Outras formas de violência, como roubos, furtos e agressões, prosseguem a taxas elevadas. Também prospera o tráfico de drogas, que sustenta o crime organizado. Aqui, a matéria enfatiza o papel das prefeituras em prevenção, especialmente combatendo a existência de guetos de pobreza e desigualdade.
No mesmo dia em que saiu a matéria do Estadão, noticiava-se que 13 pessoas ficaram feridas, entre elas uma criança de 11 anos, depois que uma granada explodiu na saída de um baile funk na Favela de Antares, no Rio de Janeiro. A explosão teria sido causada por um traficante que, dançando com o artefato na mão, deixara a granada cair acidentalmente. Em conseqüência, outros responsáveis pelo tráfico o condenaram à morte.
Na verdade, o problema da violência exige uma abordagem que integre diferentes políticas públicas e níveis de governo. Comecemos pelo fator mais simples: há fortes evidências de que o crescimento econômico tem forte impacto sobre a violência e o crime. Não é por acaso que os países mais pobres do mundo, como mostra Paul Collier em seu excelente Bottom Billion, são os mais sujeitos a guerras civis - 73% da população dos países que reúnem os 980 milhões de pessoas que se tornaram aprisionadas na pobreza, segundo o autor, esteve recentemente em guerra civil ou ainda está. Quando não se tem esperança de um futuro melhor, a violência pode parecer um caminho interessante e mesmo uma oportunidade de negócio e poder.
Além da economia, o investimento em educação gera possibilidades de reverter o quadro de “guerras urbanas”, em especial se a educação puder ser percebida pelos mais pobres como de alta empregabilidade. Nesse sentido, chama a atenção relatório do Centro Paula Souza que demonstra que seus formandos em cursos superiores de tecnologia apresentam 92% de índice de empregabilidade nas áreas em que estudaram e os de ensino médio profissionalizante, 86%. Há uma demanda importante por esse tipo de profissional e aumentar a atuação do poder público nesse segmento faz muito sentido.
A política cultural pode contribuir também, ao ampliar as percepções sobre fontes de lazer, não as restringindo ao clássico boteco do fim de semana, causa principal dos conflitos com morte entre jovens de sexo masculino. Mas a cultura ajuda inclusive a tornar menos restrito, e potencialmente menos sujeito à violência, o uso do tempo livre dos jovens de classe média. Falta de acesso à cultura pode ser um dos fatores que levam alguns jovens de elite a associar prazer apenas com velocidade, brigas, humilhação e agressões a prostitutas ou empregadas domésticas, ou consumo de substâncias alucinógenas. O contato com as artes, ao mobilizar energias criativas de jovens de diferentes segmentos sociais, seja para o usufruto ou para o protagonismo cultural, pode ser um elemento importante na prevenção de violência. Os esportes desempenham papel assemelhado. Crianças e jovens que, após a escola, podem praticar, com regularidade, esportes que permitam que se destaquem e obtenham um lazer agradável são, comprovadamente, menos sujeitos ao recrutamento do narcotráfico.
Mas há algo de muito concreto que prefeitos de megalópoles podem fazer para eliminar focos de violência associados ao crime organizado: garantir uma forte presença do Estado em áreas onde hoje existe um poder paralelo a fornecer “serviços públicos”, como a Máfia fazia em seus áureos tempos. Traficantes em diferentes capitais do País cuidam das viúvas, oferecem emprego, lazer (como o baile em que a bomba explodiu por descuido) e poder à juventude e autorizam, se conveniente, a entrada do poder público para vacinar as crianças, de ONGs ou igrejas que aceitem a regra do silêncio ou mesmo se ponham a serviço dos grandes chefes. Isso não pode ser aceito! O Estado tem um papel a cumprir e não pode conviver com a existência de territórios sem lei.
Nesse aspecto, Bogotá nos dá um exemplo a ser copiado. No combate aos narcotraficantes, fez uma intervenção em áreas por eles controladas, instalando ali bibliotecas-modelo, escolas modernas construídas e geridas por organizações sociais, centros desportivos e culturais e, naturalmente, presença visível e atuante da polícia.
É fundamental não tolerar essa lógica perversa da violência que destrói vidas e dissemina insegurança. E o enfrentamento dessa visão distorcida demanda a promoção de uma ética do esforço, o respeito às leis e regras sociais básicas, a valorização do trabalho do policial (que aparentemente não ousamos fazer, por associarmos essa idéia à ditadura) e o investimento em políticas públicas integradas, em especial uma educação de qualidade que promova empregabilidade e autonomia.
Claudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita e professora do Ibmec-SP, foi ministra da Administração Federal e Reforma do Estado e secretária da Cultura do Estado de São Paulo
FONTE: OESP - 01/09/08