terça-feira, 22 de julho de 2008

Felipe César

Meu herói
Quando assisto à televisão, ou leio os jornais, não me deparo com nada novo, a não ser mais violência e tristeza, consolo e desconsolo, desespero.
A procura de algo novo, que despertasse meu sentido de curiosidade, de interesse, veio a escuridão para iluminar meu dia. Em todos os jornais, nos boletins culturais televisivos, chegou algo esperado e inesperado ao mesmo tempo: Batman.
Esperado porque há tempos aguardo o lançamento da continuação de ‘Batman Begins’, e inesperado pelo filme que assisti hoje, segunda-feira, dia 21 de julho de 2008, sessão das 15h e 15m em um shopping de São Paulo.
Nunca vi uma atuação tão perfeita de um homem sobre uma personagem dos gibis americanos. Não falo do Batman, mas de um vilão tão perfeito e insano, que enche de orgulho nosso lado sombrio da alma.
Heath Ledger interpretou um Coringa totalmente pirado, mas não incompreensível, mas frio, ou melhor, gelado, imprevisível, maníaco, psicótico, sarcástico, doido varrido e sorridente, ou seja, Coringa.
Os irmãos Christopher e Jonathan Nolan e Heath Ledger conseguiram com sucesso estampar em nossa face, a violência e o caos em que vive a sociedade hoje. Também é verdade que outros filmes já fizeram isso, mas nesse, o Coringa mostra como o homem é egoísta e metódico, e todos nós estamos inclusos nesse pacote, sem exceção. O indivíduo de cabelo verde, maquiagem branca no rosto e sorriso largo, encoraja a revelar nossa outra face, nossa outra cara.
O filme me abriu caminho para reflexão, e depois de pensar, pensar e repensar... cheguei a uma conclusão com três possibilidades:

1º- zombar da justiça como Daniel Dantas, pois todos têm seu preço, basta somente ter dinheiro;
2º- ficamos como estamos e como dizia vovó: não mexe no que tá quieto;
e 3º- pintamos o cabelo de verde e botamos pra quebrar! (é o meu preferido, mas não sou louco o bastante ou não tenho coragem o suficiente, e na impossibilidade de escolher a primeira opção por questões óbvias, só me restou a segunda alternativa).
E você? Vai ser o herói de terno roxo...?
Felipe César - 21/07/08

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Crônica de uma liberdade anunciada

FREI BETTO

NÃO HOUVE surpresa. O corruptor pau-mandado disse com todas as letras, gravadas pela Polícia Federal, que o chefe se preocupava "apenas com o processo em primeira instância, uma vez que no STJ e no STF ele resolve tudo".
Sabia o que dizia. Dito e feito, em dose dupla. O chefe entrou na lista daqueles que, para certos ministros do STF, pairam acima da lei e reforçam a nociva cultura de que, como cantava Noel Rosa, "para quem é pobre a lei é dura", mas para quem é rico a impunidade fa(r)tura.
Vale a piada do político corrupto que surpreendeu o filho surrupiando-lhe a carteira e deu-lhe umas palmadas. "Mas você também rouba!", reagiu o menino. "Não te castigo por roubar, mas por se deixar apanhar em flagrante", retrucou o pai.
Agora, nem o flagrante merece punição. Vide as imagens gravadas pela PF em que aparece a dinheirama destinada a corromper um delegado daquele órgão. O ciclo vicioso se confirma: a Polícia prende, a Justiça solta. E alguns disso se aproveitam e fogem.Ou a pena prescreve, sacramentando a impunidade e permitindo até que se candidatem a cargos públicos.
A corrupção, aliada à impunidade, de quem é filha, já indignava o autor de "A Arte de Furtar", escrito entre os séculos 17 e 18: "Se vossa casa, ontem, era de esgrimidor, como a vemos hoje à guisa de príncipe? E até vossa mulher brilha diamantes, rubis e pérolas, sobre estrados broslados? Que cadeiras são essas que vos vemos de brocado, contadores da China, catres de tartaruga, lâminas de Roma, quadros de Turpino, brincos de Veneza etc.?"Eu não sou bruxo nem adivinho; mas me atrevo, sem lançar peneira, a afirmar que vossas unhas vos granjearam todos esses regalos para vosso corpo, sem vos lembrarem as tiçoadas com que se hão de recambiar no outro mundo. Porque é certo que vós os não lavrastes, nem os roçastes, nem vos nasceram em casa como pepinos na horta".
E aponta as ramificações do enriquecimento ilícito nas estruturas de poder: "Furtam pelo modo infinito, porque não tem fim o furtar com o fim do governo e sempre lá deixam raízes, em que vão continuando os furtos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse".
Em "A Desordenada Cobiça dos Bens Alheios - Antiguidade e Nobreza dos Ladrões" (1619), Carlos García diz que a arte da ladroagem é superior à alquimia, pois do nada faz tudo: "Haverá maior nobreza no mundo que ser cavaleiro sem rendas e ter os bens alheios tão próprios que se pode dispor deles a seu gosto e vontade, sem que lhe custe mais que pegar-lhes?".E denuncia o engano em que muitos vivem, "crendo que foi a pobreza a inventora do furto, não sendo outros senão a riqueza e a prosperidade".
Padre Vieira, nascido há 400 anos, alerta em seu "Sermão do Bom Ladrão" (1655): "Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam".Sim, não temem as instâncias superiores da Justiça, pois não há o perigo de ficarem atrás das grades. Soltos, continuam a furtar o erário, e enforcam, nas negociatas, a cultura da decência, da ética e da justa legalidade.
E ainda há quem proteste por ver a mídia acompanhar as operações policiais. Quem reclama quando as viaturas cercam a favela com brucutus e "caveirões"? Reza o direito que, se o crime é clandestino, a repressão e a punição devem ser públicas, para servir de exemplo e coibir potenciais bandidos, sejam eles de chinelos de dedo ou de colarinho-branco.
Segundo Cícero, "o maior estímulo para cometer faltas é a esperança de impunidade". Enquanto o nosso Código de Processo Penal não sofrer profundas modificações, os bandidos poderão repetir em entrevistas que só temem a Polícia, porque a Justiça é cega às suas práticas criminosas.
Talvez fosse mais sensato acatar a proposta de Capistrano de Abreu e reduzir a Constituição a dois artigos: "Artigo 1º: Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Artigo 2º: Ficam revogadas todas as disposições em contrário".
FONTE: FSP - 13/07/08

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto,63, frade dominicano e escritor, é autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

quinta-feira, 17 de julho de 2008

O disco rígido de Fátima

Verissimo

Estão dizendo que as informações contidas no disco rígido do computador do Daniel Dantas apreendido pela Polícia Federal vão acabar com a República. Descontando-se nosso gosto pelo exagero, pode-se comparar o disco rígido do Daniel Dantas ao terceiro segredo revelado pela Virgem Maria às crianças de Fátima, que só o Vaticano - no nosso caso, a polícia - conhecia, e não contava. Também se especulava que a revelação da Virgem era um anúncio do fim de tudo. Como o rompimento do sétimo selo da Bíblia, a abertura do disco rígido do Daniel Dantas provocaria vozes e trovões, relâmpagos e terremotos, e saraiva e fogo misturados com sangue lançados sobre a Terra. Ou, para usar um tom menos apocalíptico, embaraços terminais. O papa João Paulo II acabou tranqüilizando os fiéis, anunciando que a coisa terrível que era para acontecer, na interpretação da Igreja, já tinha acontecido: o atentado fracassado contra a sua vida. Ou seja, a Virgem exagerara um pouco. A Polícia Federal bem que poderia fazer como o papa e dar um vislumbre do que está no disco rígido, para acalmar os cristãos, e os nem tão cristãos.
Confesso que me desapontei com o nome dado pela Polícia Federal à investigação dos negócios do Eike Batista, Operação Rei Midas, ou coisa parecida. Não está à altura do nome da operação que destampou o escândalo do Detran do Rio Grande do Sul ('Rodin', porque uma das principais empresas envolvidas se chamava 'Pensant') ou o 'Satiagraha' da operação pega-Dantas. Depois de nos acostumar com sua erudição e sofisticação, a Polícia Federal não pode frustrar assim nossa expectativa. Queremos criação literária no mesmo nível da ação anticorrupção. Não nos decepcionem!
A reação à capa da revista The New Yorker desta semana prova, mais uma vez, os perigos da sátira incompreendida. A capa mostra o Barak Obama vestido de muçulmano e sua mulher Michelle vestida e armada como guerrilheira, os dois no gabinete oval da Casa Branca, com um retrato do Bin Laden na parede em cima de uma lareira onde arde a bandeira americana. Os dois se cumprimentam por terem chegado lá. Satirizados no desenho estão os piores temores que a direita americana tenta espalhar entre os eleitores a respeito do casal. Mas quem está protestando é a turma do Obama, que não gostou da brincadeira. Bem explicado, não pode haver dúvidas sobre a intenção do cartum. Mas humor que precisa ser explicado é humor que não funciona.
FONTE: OESP - 17/07/08

Dentes

Verissimo
Os dois foram colegas na escola. Amigos inseparáveis. Mas separaram-se. E um dia se reencontram. Um bem vestido, com sinais ostensivos de riqueza. O outro mal. Mal vestido, mal cuidado, mal tudo. Abraçam-se. Que coisa! Há quanto tempo! Tratam-se pelos apelidos de antigamente.
Joca e Bolão.
Você se deu bem, hein Bolão? Olhe só.
- É. O meu pai fez fortuna, eu fiquei independente. Estou bem, sim.
E você, Joca. O que aconteceu com você?
Pois é. A vida...
- Não. Não me venha com essa de vida, de culpa da sociedade. Somos indivíduos, e cada indivíduo é responsável pelo seu destino. Então você é responsável pelo seu pai ter enriquecido e eu pelo meu ter morrido e nos deixado na pior e... Seus dentes, por exemplo.
O quê?
Não vai me dizer que seus dentes ficaram desse jeito por culpa da sociedade. Você e eu começamos com os mesmos dentes, mas eu cuidei dos meus.
Porque você tinha dinheiro!
Não, não. Porque eu dei prioridade à higiene bucal e você, obviamente, não.
Olha aqui, Bolão...
Bolão levanta o livro que tem na mão.
Sabe quem escreveu este livro, Joca? Eu. Como vivo de rendas e tenho muito tempo livre, escrevo. E eu mesmo publico. Estes são ensaios sobre os filósofos do século 17. Onde sustento, por exemplo, que o pensamento cartesiano só se tornou possível porque Descartes escrevia em francês em vez de latim escolástico. A filosofia moderna é uma decorrência da linguagem. Descartes desenvolveu um sistema de argumentação abstrata porque saiu do latim para o francês, enquanto Bacon, por exemplo, não conseguiu fazer o mesmo com o inglês. Entende?
- Não.
Claro que não. Bacon e Descartes educaram-se com o mesmo latim, como você e eu estivemos nos mesmos bancos escolares e aprendemos com os mesmos professores, mas depois cada um cresceu na sua própria língua. Isto é, na sua própria cultura, no seu próprio universo de referências, na sua própria sintaxe. Mas se os dois fossem franceses, desenvolveriam o mesmo sistema de pensamento, já que eram iguais. Mas os dois não eram franceses, meu caro. Portanto não eram iguais. Um era francês e o outro era inglês. De nascimento. Não foi a sociedade que fez um francês e o outro inglês. Foi a fatalidade genética.
Mas você e eu falamos a mesma língua.
O português que nós dois aprendemos juntos equivale ao latim com que Descartes e Bacon aprenderam a pensar, na escola. Mas Descartes estava destinado a falar francês, a língua do discernimento, e Bacon condenado ao rude inglês. Eu estava destinado a transcender o meu latim para a linguagem do saber e do empreendimento intelectual, você estava destinado a transcender o seu latim para a linguagem do ressentimento e da perplexidade, a linguagem do nada. Falamos a mesma língua na escola, depois desaparecemos dentro de nossas respectivas classes e culturas, como barcos se afastando no nevoeiro.
Mas você acabou de dizer que cada indivíduo é responsável pelo seu destino.
Responsável pelo que faz nos limites da sua predestinação. E, se me recordo bem, estávamos falando de dentes. Os meus são perfeitos, os seus estão podres. E isso não tem nada a ver com dinheiro, sorte ou dinâmica social, Joca. Cada indivíduo é responsável, ao menos, pelo estado dos seus dentes.
E pelo estado dos dentes dos outros.
Como assim?
Eu não estou predestinado a quebrar seus dentes com um soco. Mas posso decidir quebrá-los. Como indivíduo, estarei decidindo o meu destino. Ou, no caso, o destino dos seus dentes.
Joca, espera um pouquinho. Vamos conversar!
Você esqueceu? Nós não falamos a mesma língua. Nenhum entendimento é possível entre nós dois.
- Espera, Joca!
FONTE: OESP - 13/07/08

Do abafa à indignação

ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Na terça, os delegados da operação Satiagraha se recolheram (ou foram recolhidos) à sua insignificância, o diretor-geral da PF tirou férias, e o presidente do Supremo e o ministro da Justiça trocaram de bem, sob as bênçãos do presidente da República. A imprensa ficou falando sozinha de Celso Pitta, Naji Nahas e Daniel Dantas -que são o que interessa.
Ontem, o governo percebeu o erro monumental que estava cometendo. Diante da evidência de pressões para abafar o caso e da indignação generalizada, houve um meia-volta-volver: Lula fez o gênero indignado com as "insinuações", o delegado tomou depoimento de Dantas, até a Justiça tocou o barco.
No início do imbróglio, Lula conclamou todos a "andar na linha", porque os tempos são outros: "Quem achar que pode viver de picaretagem algum dia vai cair". Mas vai demorar, presidente...Por enquanto, a discussão é outra: preservar o Estado Democrático de Direito, coibir abusos contra cidadãos ilibados e expostos com algemas à execração pública e investir mais nas Defensorias Públicas, que vão igualar, já, já, os pobres e os ricos diante da lei e da ordem.
O melhor mesmo (para os suspeitos) é pular a fase do inquérito e ir logo para a do processo: de recurso protelatório em recurso protelatório, as testemunhas não têm mais crédito, as provas são desqualificadas, e os delegados, juízes e promotores, ironizados por só quererem aparecer. As acusações desmoronam como castelo de cartas. E TVs, rádios, jornais elegem outros temas, igualmente quentes.
Daqui a algum tempo, sobra uma leve lembrança de habeas corpus concedidos tarde da noite e da discussão algema-não-algema. Pitta, Nahas e Dantas nem precisarão se dar ao trabalho de disputar eleições para a Câmara ou o Senado -na prática, foro privilegiado é o que não lhes falta.
Ah! E vamos ligar logo a TV. O jogo do Corinthians vai começar.

FONTE: FSP - 17/07/08

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Comédia da vida cotidiana

Sabe aqueles shows de humor em que uma figura ocupa o palco com piadas ácidas sobre o cotidiano? Trata-se da stand-up comedy, estilo que tem entre seus maiores astros o americano Jerry Seinfeld. No Brasil, um dos pioneiros foi o ator paulistano Marcelo Mansfield, que acaba de reestrear o espetáculo Nocaute. No palco, desfia uma série de comentários como estes:
"Já reparou que a solução para celebridades em decadência é se converter? É um tal de gente encontrando Jesus. Já viu o naipe desse pessoal? Onde é que Jesus anda para encontrar tanta vagabunda?"
"Aquela novela da Globo chamava-se Duas Caras por modéstia. A quantidade de Botox da Susana Vieira e da Renata Sorrah dava para fazer vários outros rostos"
"Já viu as companhias da Ana Maria Braga na televisão? É Louro José, é aquele precinho do supermercado... Pô, essa mulher não tem amigo?"
FONTE: VEJA SÃO PAULO - 05/07/08

O homem que racha o poder

ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - As pessoas comuns parecem unânimes contra Daniel Dantas, mas os poderes, os poderosos e os que se julgam poderosos se mostram furiosamente divididos em função dele e de sua prisão. No governo, José Dirceu era pró-Daniel Dantas, e o também ministro Luiz Gushiken, anti. E ambos eram do Conselho Político de Lula. Durma-se com um barulho desses. Desde então, a divisão pró e anti-Dantas avançou pelo PT, chegou aos Poderes -e alimenta e é alimentada por blogs ditos independentes. Comenta-se que há jornalistas se matando, uns a favor, outros contra o megabanqueiro baiano-carioca e tucano-petista. Diante das prisões dele, de sua irmã e de toda a cúpula do Opportunity, ao lado do ex-prefeito Celso Pitta e do eterno megainvestidor Naji Nahas (diz-me com quem andas...), as divisões explodem. A Polícia Federal e a Procuradoria decidem contra Daniel Dantas, e o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, a favor, vociferando contra a "espetacularização" da prisões. Dantas acabou dividindo a própria Justiça, que evoluiu num balé prende-e-solta. Num dia, manda prender. No seguinte, manda soltar. No terceiro dia, prende de novo. E o que foi mais espetacular: a prisão de Dantas ou a decisão de Mendes de soltá-lo? Enquanto isso, no Senado, Heráclito Fortes e Tasso Jereissati abrem o vozeirão para recriminar a prisão, e Pedro Simon faz caras, bocas e principalmente gestos em apoio à ação da PF. O próprio PT dividiu-se entre os com e os sem-jantares com Daniel Dantas. Uns não param de se justificar, os outros ficaram subitamente sem voz. Perdida como cego no tiroteio de ministros, delegados, juízes, blogueiros, tucanos e petistas, a senadora Ideli Salvatti teve um lampejo acaciano. Sabe por que Daniel Dantas divide o poder, os poderosos e os que se julgam poderosos? Porque é "o maior corruptor da história". Simples assim.
FONTE: FSP - 11/07/08