segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

RUY CASTRO

Ser jovem e continuar vivo

RIO DE JANEIRO - Em 12 de novembro último, sob pretexto fútil, dezenas de alunos de uma escola do Belém, zona leste de São Paulo, promoveram um quebra-quebra das salas de aula. Ameaçaram as mestras, destruíram móveis e quebraram vidros arremessando cadeiras. Nas paredes, segundo o noticiário, picharam desenhos de armas, citações do Código Penal e a sigla do PCC, principal facção criminosa de São Paulo e, agora, do país. A escola chamou a polícia, também recebida com violência pelos jovens.
Oito dias depois, em Londrina, PR, 40 estudantes de medicina da universidade do Estado foram comemorar sua formatura num bar. De cara cheia, tarde da noite, invadiram o hospital universitário aos gritos, bebendo pelo gargalo, despejando nuvens de spray de espuma, soltando foguetes e ofendendo os pacientes petrificados. As câmeras identificaram 14 deles, que, supunha-se, não poderiam colar grau.
Na semana passada, um cruzeiro para universitários entre Santos e Rio foi palco do terror em tempo integral. Rapazes e moças jogaram malas de passageiros no mar, urinaram nos corredores, vomitaram sobre o bufê, fizeram sexo a céu aberto e lotaram a enfermaria com dezenas de intoxicações por álcool, ácido, cocaína e ecstasy.
Mas, desta vez, houve um acidente de percurso. Com a viagem ainda no começo, uma estudante de direito, Isabella, 22 anos, apareceu morta, talvez asfixiada pelo próprio vômito. O corpo foi removido em Ilhabela, e o passeio continuou, com a mesma e desesperada euforia.
Nunca foi tão difícil ser jovem e continuar vivo. Os apelos ao prazer são muitos e a facilitação, presente em todos os setores, maior ainda. Os vândalos de Londrina, por exemplo, colaram grau -pelo diploma, são médicos. Uma tragédia como a de Isabella talvez não sirva para nada.
FONTE: FSP - 29/12/2008

Verissimo

2008, o ano que já vai tarde

Homem do Ano: Barack Obama.
Mulher do Ano: Flora.
Mico do Ano: Do superacelerador de partículas que levou anos para ser construído ao custo de bilhões de euros e pifou 36 horas depois de ser ligado. A notícia do vexame foi muito festejada no Vasco da Gama - “Assim eles largam do nosso pé.”
Troféu “Faça o que eu digo mas só faça o que eu faço com a sua mulher”: Para o governador do Estado de Nova York, Eliot Spitzer, que fez sua carreira combatendo a corrupção e os maus costumes e descobriu-se que era cliente de um serviço de prostituição, onde seus gostos eram descritos como “especiais”.
A muito doida do ano: A cantora e compositora Amy Winehouse, presa diversas vezes por porte de drogas, bebedeira, desacato às autoridades e linguagem deselegante, entre outras coisas.
Agora vai! Cientistas anunciaram a descoberta da exata posição do ponto G nas mulheres e pesquisadores da Petrobrás localizaram uma imensa reserva de petróleo no pré-sal, na costa brasileira.
Troféu “Antes tarde...”: Para o papa, que pediu desculpa em nome da Igreja pelos casos de pedofilia entre padres; para o governo australiano, que pediu desculpas aos aborígines pelo tratamento que receberam durante a colonização do país; e para o Maradona, que pediu desculpas pelo gol que fez com a mão na decisão da Copa do Mundo de 86.
Troféu “Paft, poft, peft!” do ano: Dado Dolabella.
Não desocupem o meu armário...Fidel Castro deixou a chefia do governo cubano mas ainda dá seus palpites; Vladimir Putin fez o seu sucessor na presidência da Rússia mas não foi para muito longe.
Pronto, desandou: Os cubanos já podem comprar eletrodomésticos.
“L’amour, l’amour”: Nicolas Sarkozy e Carla Bruni.
“L’amour, l’amour”, mas peraí um pouquinho: Ronaldo flagrado com travestis num motel da Barra. Depois ele reconheceu que deveria ter desconfiado quando uma das moças disse que tinha deixado seu ponto G na outra bolsa.
A que ponto chegamos 1: O ator de Batman foi preso por agredir a mãe sem motivo justificado.
A que ponto chegamos 2: Exames revelaram que o cavalo Rufus, montado por Rodrigo Pessoa nas Olimpíadas da China, estava dopado durante a competição. Pessoa diz que não sabia de nada mas que desconfiou quando o Rufus começou a sair com a Amy Winehouse.
Imprensa marrom? Sapatos atirados no Bush durante uma entrevista coletiva.
Humilhação: Bernard Madoff deu um golpe de 50 bilhões. De dólares. Só isso já justifica um terceiro habeas-corpus para o Daniel Dantas.
FONTE: OESP - 28/12/2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Entrevista com Vladir Lemos

Vladir Lemos cede entrevista e fala sobre futebol, COI e um pouco de sua trajetória


Começou a carreira no início da década de noventa, como repórter da TV Tribuna, afiliada Globo da baixada santista. Fez matérias para os jornais Bom Dia SP, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal da Globo, e para os esportivos Globo Esporte e Esporte Espetacular. Trabalhou em programas veiculados pelos canais SporTV e ESPN Brasil. Trabalhou ainda para a RBS em São Paulo. É autor de livros e documentários. Uma de suas obras, "A magia da camisa 10", foi publicada no exterior: Portugal, Polônia e Hungria.
Em 1998 se transferiu para a TV Cultura, onde durante anos foi repórter e apresentador do programa "Grandes Momentos do Esporte". Ainda na mesma emissora, trabalhou nos programas Hora do Esporte, Cultura Noite e Cultura Meio-dia. Atualmente apresenta o programa "Cartão Verde", do qual é, também, editor-chefe.

Felipe César: Na sua opinião, qual o nível de qualidade do jornalismo esportivo no Brasil? E quais os projetos futuros de esportes na programação da TV Cultura?

Vladir Lemos: É difícil falar em termos gerais. Não me agrada certo viés sensacionalista usado por alguns veículos. Mas o país, claro, tem ótimos programas e ótimos profissionais nessa área. Sobre os projetos na TV Cultura posso dizer que no momento temos no ar vários programas, entre eles o CartãoVerde, Grandes Momentos do Esporte e o Conquista, nosso projeto mais recente, que é uma revista esportiva. Gostaríamos de voltar a ter um programa diário de esportes, o que exige uma estrutura maior.

Felipe César: O que você achou da última eleição do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) que reelegeu o Sr. Carlos Arthur Nuzman?

Vladir Lemos: Bom, a maneira como se deu a eleição foi lamentável. Às pressas, com presidentes de Confederações entrando pela porta dos fundos de um hotel no Rio. Agora se fala em CPI para investigar os gastos com o esporte olímpico. Não sei se passará, mas seria vital para o nosso esporte. Isso sem contar que o COB recebe dinheiro público e não precisa prestar contas por se tratar de uma entidade de direito privado. Essa realidade precisa mudar. Os dirigentes não podem continuar se perpetuando no poder. Coisas que, infelizmente, não são novidades.

Felipe César: Como você avalia o trabalho do COB, tendo por base os resultados dos Jogos Olímpicos de Pequim?

Vladir Lemos: Muito abaixo das expectativas. Prioridade ao esporte de alto rendimento é o fim. Hoje, o COB só é obrigado a investir 15% do que recebe no desporto universitário e escolar. Não dá!

Felipe César: O que te levou a se especializar no jornalismo esportivo?

Vladir Lemos: Sempre pratiquei esportes. Remo, corrida, surfe, futebol, vôlei, natação. Mas não ter vocação para fazer jornalismo político, econômico e policial foi decisivo também.

Adriano Coqueiro: O Sócrates defende a tese que se deve diminuir o número de jogadores dentro de campo para os "artístas" da bola evoluírem e mostrarem suas habilidades. Partindo desse princípio, você acredita que o futebol, nessa proporção, voltará a encher os olhos do torcedor?

Vladir Lemos: Pra ser sincero sou um tanto reticente com relação a mudanças desse tipo. Diminuir o número de jogadores é algo que criaria uma dinâmica totalmente nova, seria quase outro futebol. Vale lembrar do vôlei que passou por mudanças fortes. Não digo que elas não foram boas, mas sob certa ótica criaram outro jogo. Mas acho que no mínimo, as opções devem ser analisadas.

Adriano Coqueiro: Qual a sua tese para tantos fracassos das equipes de futebol do Rio? Como é possível um futebol com tanta tradição e capacidade técnica viver ameaçado?

Vladir Lemos: Não vejo essa divisão de RJ e SP. Tecnicamente não há diferença. Se tivesse que apontar um motivo diria que a administração dos times paulistas e a capacidade financeira de alguns é que desequilibram. Esse é um bom tema. Veja como o São Paulo encarou a reta final do Brasileirão e como o Flamengo encarou. Veja tudo que foi dito do ambiente na Gávea e do ambiente no Morumbi, é um bom caminho para encontrar respostas.

Felipe César: Você acha que o Maradona vai vingar como técnico da seleção argentina?

Vladir Lemos: Acho que ele é um cara inteligente, apesar de tudo que passou. Maradona aceitou uma tarefa ingrata e difícil. Mesmo sendo um ídolo na Argentina, quando seu nome surgiu, houve uma rejeição de 70%. Não dá pra dizer que não vai dar, embora isso seja provável.
Entrevista cedida no dia 29/11/08.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Felipe César

Money, Money, Money...

Felipe César
Estou estupefato com as grandes quantias em dinheiro que os EUA, a Europa (Alemanha, França e Inglaterra etc) e o Brasil despejam na economia de seus países para conter a crise econômica que assola o mundo.
As quantias são exorbitantes. Vejam só:

· A Alemanha aprovou um plano de investimentos na ordem de 50 bilhões de euros durante os anos de 2009 e 2010;
· A França injetou 3 bilhões de euros no banco franco-belga, líder mundial de empréstimos para prefeituras e serviços públicos;
· O governo norte-americano salvou mais um banco, o Citigroup. Num investimento de US$ 20 bilhões em novos recursos, além dos US$ 25 bilhões já colocados na instituição;
· Aqui no Brasil, o presidente Lula sancionou a Lei nº 11.793, que autoriza, até o final do ano, a transferência de R$ 3.250.000.000 bilhões aos estados e municípios. O objetivo é não paralisar as exportações do país;
· E não esqueçamos dos US$ 700 bilhões que os EUA colocou em seu mercado logo no início da crise.
Podem me chamar de ingênuo, mas fiquei surpreso com tanto dinheiro para ajudar banqueiros, industriais e executivos. De onde veio tanta grana e tão rápido?
Não quero pregar que o mundo deve deixar a crise estourar de vez, e provocar desemprego e paralisação no comércio e economia global. Mas como os países ricos, e até mesmo os países em desenvolvimento como o Brasil, por exemplo, possuem tanto dinheiro para sustentar o sistema capitalista e não deixar que ele morra.
Recentemente, vi uma matéria na televisão sobre o desenvolvimento econômico e social na Angola. Lá, a desigualdade é mais gritante que aqui. Parece que ruas e avenidas asfaltadas é luxo. E então fiquei pensando: tantos países com dificuldades básicas como saneamento, fome e urbanismo, não recebem ajuda na casa dos bilhões de dólares como estão recebendo instituições bancárias e indústrias. Quer prova maior que um pedaço de papel chamado dinheiro, tem mais valor que a qualidade de vida do ser humano? Afinal, banco é banco não é mesmo?

A normalidade

Verissimo
O Valtão era o que se costuma chamar de “solteirão”, uma condição que sua irmã Valkíria não aceitava.
- Você precisa se casar, Valtão.
- Por quê?
- Porque não fica bem um homem da sua idade solteiro.
O Valtão tinha quase 50 anos. Entre as muitas coisas que Valkíria achava que não ficavam bem, um homem de quase 50 anos ainda solteiro era das que ficavam piores.
- Mas eu estou satisfeito assim, Val.
- Eu sei. Mas não é, não é...
- O que, Val?
- Normal.
Valkíria era casada. Com o Pereirinha que, diziam, tinha uma noiva em cada bairro da cidade e gastava uma fortuna só em transporte. Valkíria era normal. Valtão não era. Valtão precisava se casar para normalizar sua vida. Para contentar sua irmã. E para ficar bem.
- Vou te apresentar uma pessoa - anunciou Valkíria, um dia.
- Vocês vão se dar muito bem. Têm muitas coisas em comum.
- O que, por exemplo?
- Ela também gosta de cinema. Eu acho. E teatro. Adora teatro.
- Eu não gosto de teatro.
- Não sei se ela gosta de teatro, mas é uma pessoa interessantíssima. Tem renda própria e não é feia. Quer saber o nome dela?
- Não.
- Verônica. Não é bonito? Verônica. Vocês vão se dar muito bem.
- Por que você acha isso, Val?
- Porque numa coisa vocês são iguais. No que interessa. Ela também é solteirona.
Para Valkíria, mulher com quase 50 e ainda solteira também era uma aberração. Se conseguisse que o irmão e a amiga se casassem, estaria acabando com duas aberrações, por assim dizer, com uma cajadada só. E trazendo os dois para a normalidade.
O que os dois tinham mesmo em comum era que Verônica também estava cansada das pressões para se casar que sofria de amigos como a Valkíria e da família. No primeiro encontro, concordaram. Se casariam. Sem namoro, sem noivado, sem se conhecerem bem e sem demora. Desde que algumas coisas ficassem acertadas.
- Eu leio jornal na cama e durmo só de camiseta.
- Antes de tomar uma xícara de café de manhã, não falo com ninguém. Só rosno.
- Tenho horror de sol, de miúdos, de cheiro de incenso e de pagode.
- Você raspa a manteiga ou tira pedaço?
- Tiro pedaço. Você?
- Raspo. E enrolo o tubo de pasta de dente.
- Eu não enrolo, mas não tenho preconceito.
- Uma coisa: o controle remoto da televisão fica comigo.
- A não ser quando tiver futebol.
- Combinado.
Casaram-se, numa cerimônia simples na casa da Valkíria, que estava radiante. E, é claro, divorciaram-se pouco tempo depois da lua-de-mel em Porto Seguro. Valtão não sabia como contar para a irmã do divórcio. Simplesmente não dera certo. Os dois tinham hábitos de solteirões muito arraigados. Tinham tentado, mas... Valkíria compreenderia.
E, para sua surpresa, Valkíria compreendeu. Hoje em dia é normal ser divorciado, disse ela. A maioria das suas amigas era de divorciadas. Ela mesma só não era divorciada porque o Pereirinha dizia que acreditava demais na santidade do casamento e não aceitava.
FONTE: OESP - 23/11/08

domingo, 23 de novembro de 2008

“Nós vamos fazer corredor onde for possível fazer corredor”

Sebastião Almeida fala do transporte público em Guarulhos e seus projetos para o trânsito da cidade

Felipe César

Em entrevista cedida ao Jornal Cinco Minutos UnG, no dia 04/11/08, em seu gabinete na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, o prefeito eleito pela cidade de Guarulhos, Sebastião Almeida, fala do trânsito, transporte e corredores de ônibus no município. Acompanhe a entrevista abaixo:

Primeiro minuto: Almeida, quais os planos para o transporte público na cidade de Guarulhos?

Nós vamos implantar o Bilhete Único no meu governo. Com a construção de vários terminais integrados na cidade, o cidadão pode descer num terminal de ônibus, e ali, pegar um outro ônibus para outra região com o mesmo valor, uma tarifa.

Segundo minuto: Como isso será feito, se uma das maiores queixas da população está justamente nas ruas estreitas da cidade?

Guarulhos é uma cidade que foi crescendo de forma desordenada. Não tem como alguém dizer que vai alargar todas as ruas de Guarulhos, vai estar mentindo se fizer isso. Nós vamos fazer corredor aonde for possível fazer corredor.
O anel viário, por exemplo, permite um corredor exclusivo para ônibus. Nos horários de pico, nós vamos ter que transformar uma área da pista em corredor exclusivo, nem que seja por meio de isolamento de uma faixa.

Terceiro minuto: Isso acarretaria numa diminuição no fluxo de carros particulares?

Na medida em que você melhorar o transporte público, torná-lo mais eficiente, por si só ele passa a ser um atrativo para as pessoas que estavam utilizando o carro. Mas é importante lembrar que isso apenas não basta.

Quarto minuto: O que mais ajudaria Almeida?

Fazer gestões muito fortes junto ao Governo do Estado para que nossa cidade seja ligada ao metrô. O traçado do trem, pela região da Penha até a USP Leste, o Expresso Aeroporto e o Trem de Guarulhos, são obras essenciais para o crescimento de nossa cidade.

Quinto minuto: Mas isso é um projeto muito antigo na cidade...

Hoje ele está mais avançado que no passado, pois agora existe um consenso de que este será feito através de uma PPP (Parceria Público Privada). A iniciativa privada tem total interesse nessa obra. O aeroporto tem mais de 20 mil funcionários. Se somado aos passageiros que viajam todos os dias por ali, são mais de 100 mil pessoas.
O bairro do Cecap passará a ser a maneira mais fácil do guarulhense acessar o metrô de São Paulo. Mas na minha opinião, o que melhor atenderia a população de Guarulhos seria um trem que saísse da estação de metrô Tucuruvi até a Vila Galvão, cortasse até o centro e chegasse ao aeroporto. Esse é o melhor sistema para ajudar o povo de Guarulhos.




FONTE: CINCO MINUTOS UnG

“Nós temos tudo que as outras cidades gostariam de ter e não tem”

Prefeito eleito pela cidade de Guarulhos, Sebastião Almeida fala que a crise econômica mundial não irá atrapalhar o ritmo de crescimento da cidade

Felipe César

A cidade de Guarulhos possui um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 21,6 bilhões, o sétimo maior do Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2005.
Segunda cidade mais populosa do Estado de São Paulo, com 1,2 milhão de habitantes, Guarulhos apresenta um volume de exportação de cerca de US$ 1,3 bilhão, a 11º do país em volume anual.
Com uma participação de 1,01% do PIB nacional, o futuro prefeito Almeida não teme a crise econômica que afeta o mundo na atualidade, e faz planos para o crescimento econômico do município. “Vamos avançar para que a gente possa transformar a cidade de Guarulhos em um grande centro de convenções, exposições, de intercâmbio da indústria local, incentivando as feiras de comércio local”.
Segundo Almeida, Guarulhos possui dois pontos estratégicos em sua economia, “vocação industrial e forte na questão da prestação de serviços”. E ainda, segundo ele, a cidade tem todos os atributos para uma economia forte e um comércio competitivo: “Guarulhos está ao lado da rodovia Fernão Dias, tem a Via Dutra no meio, a rodovia Ayrton Senna do lado, um grande aeroporto e agora uma grande ligação entre esse aeroporto e o porto de Santos, nós temos tudo que as outras cidades gostariam de ter e não tem”.
Realmente o município de Guarulhos é muito bem localizado, e possui um dos melhores aeroportos do Brasil. Mas a população guarulhense sofre com a falta de grandes obras nas áreas de habitação e vias adequadas para o transporte público. Será que o futuro administrador da cidade irá corresponder às expectativas de seus eleitores? Isso nós só vamos poder informar daqui a um ano, no primeiro balanço da gestão de Almeida a frente da Prefeitura de Guarulhos. Até lá, muita coisa ainda vai acontecer.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

CLÓVIS ROSSI

Números que falam

SÃO PAULO - Zander Navarro, notável acadêmico, hoje na universidade britânica de Sussex, manda e-mail com o que chama de "ilustração dramática" do "ritmo desenfreado de apropriação da riqueza nas últimas décadas, o que gerou aumento na desigualdade".
Alguns números: 1 - A renda dos 1.125 bilionários do planeta (US$ 4,4 trilhões) supera a renda somada de metade da população adulta do planeta. Se se quiser comparar com o Brasil, 1.125 bilionários têm uma renda que é quatro vezes tudo o que 180 milhões de brasileiros produzem de bens e serviços.
2 - Segundo o Instituto para Estudos de Política, os executivos-chefes das 500 maiores corporações dos EUA ganharam em 2007, em média, US$ 10,5 milhões, 344 vezes o pagamento do trabalhador norte-americano típico.Já os gerentes dos 50 fundos de hedge e de "private equity" receberam cada um US$ 588 milhões, mais do que 19 mil vezes o salário-tipo do norte-americano.
3 - Em agosto de 2008, a Exxon, a maior companhia do planeta, registrava lucros recordes à taxa de US$ 90 mil POR MINUTO. Os rendimentos do Wal-Mart batiam, em 2007, o produto nacional bruto da Grécia; os da Toyota superavam o da Venezuela.
Não pense que o Brasil escapa, não. Por muito que o governo cultive a lenda da queda da desigualdade, o Ipea acaba de divulgar estudo mostrando que só em 2011 o rendimento do trabalho voltará a ter a participação na riqueza nacional que tinha em 1990 (45,4%).
Mesmo que volte, continuará atrás do capital, embora o número de capitalistas seja obviamente bem inferior ao de assalariados. No governo Lula, aliás, a queda da participação do trabalho no bolo da riqueza nacional acentuou-se até 2004, só começando a se recuperar a partir de 2005.
Todos esses números dispensam opinião. Falam sozinhos.
FONTE: FSP - 14/11/08

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O fascínio do jornalismo

Carlos Alberto Di Franco

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares da opinião pública. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros mitos que conspiram contra a credibilidade dos jornais. Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.
Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística. A neutralidade é uma mentira, mas a isenção é uma meta a ser perseguida. Todos os dias. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. E é isso que conta.Mas a busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, a falta de rigor e o excesso de declarações entre aspas. O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Militância e jornalismo não combinam. Trata-se de uma mescla, talvez compreensível e legítima nos anos sombrios da ditadura, mas que, agora, tem a marca do atraso e o vestígio do fundamentalismo sectário. O militante não sabe que o importante é saber escutar. Esquece, ofuscado pela arrogância ideológica ou pela névoa do partidarismo, que as respostas são sempre mais importantes que as perguntas. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.
O bom repórter é um curioso essencial, um profissional que é pago para se surpreender. Pode haver algo mais fascinante? O jornalista ético esquadrinha a realidade, o profissional preconceituoso constrói a história. Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Trata-se de um esforço de isenção mínimo e incontornável. Mas alguns desvios transformam um princípio irretocável num jogo de cena. A apuração de faz-de-conta representa uma das maiores agressões à ética informativa. Matérias previamente decididas em bolsões engajados buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é sincera, não se apóia na busca da verdade. É um artifício. O assalto à verdade culmina com uma estratégia exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca, então, pretensos especialistas para declararem o que o repórter quer ouvir. Personalidades entrevistadas avalizam a “seriedade” da reportagem. Mata-se o jornalismo. Cria-se a ideologia.
É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos arautos das ideologias. A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade da informação. A manchete de impacto, oposta ao fato ou fora do contexto da matéria, transmite ao leitor a sensação de uma fraude.
Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal The New York Times, Gay Talese vê importantes problemas que castigam a imprensa de qualidade. “Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mails, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas.”“Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. E o leitor, não duvidemos, capta tudo isso. Boa parte do noticiário de política, por exemplo, não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo declaratório. Não tem o menor interesse para os leitores. O uso de grampos como material jornalístico virou ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. De uns tempos para cá, o leitor passou a receber dossiês que, muitas vezes, não se sustentam em pé. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos, fechados no ambiente rarefeito das redações. Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo corre o risco de virar show business. É óbvio que esse modelo de jornalismo não é capaz de atrair um público qualificado. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer algo mais. Quer o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões. Conquistar leitores é um desafio formidável. Reclama realismo, ética e qualidade.
A autocrítica, justa e necessária, deve ser acompanhada por um firme propósito de transparência e de retificação dos nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer seus erros. As palavras podem informar corretamente, denunciar situações injustas, cobrar soluções. Mas podem também esquartejar reputações, desinformar. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é fácil. Mas admitir a prática de atitudes de prejulgamento, preconceitos informativos ou leviandade noticiosa exigem coragem ética. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade. O jornalismo tropeça em armadilhas. Nossa profissão enfrenta desafios, dificuldades e riscos sem fim. E é aí que mora o fascínio.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com) E-mail: difranco@iics.org.br
FONTE: OESP - 03/11/08

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

ELIO GASPARI

Na "guerra da informação", morre a verdade
NÃO É O CASO de começar o que o governador José Serra chamou de "guerra de informações", em torno dos desastres de seus policiais. Nas guerras prevalece o mais forte, e nem sempre ele tem razão. O surto de incompetência e dissimulação apresentado pela polícia e pelo governo de Serra é apenas um caso de malversação do poder.
O governo paulista varre para baixo do tapete o motim de uma parte do grupo de elite da Polícia Civil mobilizado para ajudar a PM a conter a manifestação da quarta-feira passada. Esses policiais abandonaram a posição em que estavam e mudaram de lado, aderindo à passeata. Alguns tinham armas. Ecoaram os fuzileiros navais que, em 1964, deixaram os oficias a ver navios e aderiram à baderna dos marinheiros amotinados no sindicato do metalúrgicos, no Rio. Serra não deveria demonizar o PT e o deputado Paulinho da Força responsabilizando-os pela passeata que pretendia seguir até o Palácio dos Bandeirantes. A manifestação movia-se em lugar proibido e bastaria esse argumento. Ademais, Paulinho já era o notório Paulinho quando apoiou a candidatura de Serra à Prefeitura de São Paulo, em 2004. Nessa transação, seu PDT ganhou a Secretaria do Trabalho.
Para efeito de raciocínio, admita-se que mexer com a rebelião dos policiais poderá radicalizar uma divisão na categoria. Tudo bem. Então tome-se o caso do seqüestro das jovens Eloá Cristina Pimentel e Nayara Rodrigues da Silva. Nele não houve política. As duas meninas ficaram em cativeiro durante cem horas, tempo suficiente para que uma polícia capaz desfizesse a malfeitoria. Num lance inédito na história dos seqüestros, permitiram que uma refém menor de idade voltasse ao local do seqüestro. Fizeram isso sem a autorização de seus pais. Se uma mulher quiser embarcar para a Disney com a filha de 15 anos, é obrigada a mostrar a autorização do pai à Polícia Federal. Para entrar no valhacouto de um delinqüente não foi necessária nenhuma das duas. O coronel Eduardo Félix, comandante do Batalhão de Choque da PM, disse que colocaria seu filho em situação semelhante, mas, ofendendo a lei, ele pôs a filha dos outros. O pai de Nayara, o metalúrgico Luciano Vieira da Silva, foi expulso do posto de comando das operações da PM. Seu crime foi ter-se exaltado quando lhe disseram que não poderia falar com o comandante. Em vez de desentocar o bandido, chuçaram o pai da vítima. A tragédia terminou com a morte de Eloá e com Nayara ferida no rosto. O seqüestrador saiu ileso.
O comandante do Policiamento de Choque, coronel Eduardo Félix defendeu sua operação tabajara dizendo que não atirou no bandido por se tratar de um "garoto em crise amorosa". Romântico o coronel, mas ele foi além: "Se a operação tivesse sido bem-sucedida, os policiais estariam sendo aplaudidos e o resultado não seria contestado". Bingo. Se o goleiro Barbosa tivesse defendido o chute de Ghiggia em 1950, teria sido aplaudido. Fracassar é uma coisa, apresentar justificativas néscias, bem outra. A patuléia não é volúvel, ela até prefere aplaudir a polícia. Descarregar o infortúnio nas justas reclamações de quem lhe paga o soldo é covardia a serviço da empulhação. Na "guerra de informações" da polícia paulista, a primeira vítima foi a verdade. A segunda, a inteligência.
FONTE: FSP - 22/10/08

terça-feira, 21 de outubro de 2008

CLÓVIS ROSSI

A barbárie nossa de cada dia
MADRI - Francho Barón, repórter do jornal espanhol "El País", acompanhou, na semana passada, uma incursão de um grupo especial da polícia carioca pela favela do Rebu. Voltou horrorizado. Mas, por mim, o horror maior é que o horror "faz tempo que deixou de ser notícia", como escreveu Barón.
Posto de outra forma: os brasileiros nos acostumamos à barbárie cotidiana. Só nos agitamos quando a barbárie sai da rotina diária, como nos casos do conflito entre as polícias de São Paulo e do assassinato da menina em Santo André pelo seu seqüestrador.
Sobre este segundo episódio, recebo e-mail desesperado de um policial de Santo André, 50 anos, que não identifico porque não pedi a devida autorização. "Estou abalado.Não durmo há três dias. Não consigo tirar o evento da cabeça. Tenho duas filhas da mesma idade da Eloá e da Nayara. Lido com a violência, mas não posso admitir hipocrisia, fraqueza e o despreparo", diz.
A carta chegou domingo, antes, portanto, do artigo do cineasta José Padilha ("Tropa de Elite") e do sociólogo Rodrigo Pimentel na Folha de ontem, em que culpam "os nossos políticos como um todo, que há muito tempo sabem que precisam reformar a segurança pública para salvar a vida de milhares de brasileiros e que há muito tempo fracassam ao não levar essa tarefa a cabo". O policial de Santo André escreveu a mesma coisa ao atacar "governos fracos, hipócritas, medíocres, que desdenham da questão da segurança pública".Fecha o e-mail com um apelo: "Estão destruindo as polícias. Ajudem-nos a salvá-las!".
Posso estar muito enganado, mas tanto o diagnóstico de Padilha/Pimentel como o grito de socorro do policial cairão no vazio, como tantos outros, assim que a barbárie voltar a ser a usual, sem um pico como os da semana passada.
FONTE: FSP - 21/10/08

ELIANE CANTANHÊDE

"Príncipe do gueto"

BRASÍLIA - Uma família sai da Paraíba, outra, de Alagoas. As duas se encontram em Santo André, sonhando com um futuro melhor no sul maravilha. Mas seus filhos se trombam numa curva da cidade e da vida e chegam a um destino trágico. Lindemberg matou Eloá com um tiro à queima-roupa na cabeça.
Uma história que começou bem brasileira e acabou num drama que seria só pessoal, não fosse o festival de amadorismo da operação que deveria salvar Eloá e acabou sendo decisiva para matá-la. A volta de Nayara ao apartamento, o presidente de um clube de futebol no circo, papeizinhos de promotores, a perda de controle sobre um menino de 22 anos. E, finalmente, a invasão sem a devida garantia.
Fazia sentido que a polícia tivesse que invadir em algum momento. Mas a regra número um é: só com todos os cenários e possibilidades bem avaliados e, sobretudo, com segurança. Não foi isso o que ocorreu.
Depois de cem horas para se preparar, a polícia entrou de qualquer jeito. Sem saber nem sequer onde os três estavam e que havia obstáculos atrás da porta. A imagem mais evidente do desastre, que seria cômica, não fosse trágica, foi a do policial cambaleando numa escadinha vagabunda, demorando uma eternidade para pular desajeitadamente janela adentro. Com um sofá na porta da sala e uma escada que não chega à janela, Lindemberg teve o tempo que não deveria, nem poderia, ter tido.
Num ponto é preciso defender o coronel Eduardo José Félix. Dizem que, "se fosse nos EUA" (onde se condenam até crianças de 10 anos), um atirador de elite teria estourado logo os miolos do seqüestrador. Ele rebate: Lindemberg era um menino, estava sofrendo e merecia a chance da negociação. Tem razão. Mas, se a polícia entronizou os conceitos de direitos humanos e de preservação da vida, falta-lhe preparo, estratégia, equipamento. Senão, Eloá estaria viva e Lindemberg não seria um assassino.
FONTE: FSP - 21/10/08

domingo, 12 de outubro de 2008

FELIPE CÉSAR

Barack e Lula, alguma semelhança?

Assistindo pela televisão, ou lendo as mídias impressas sobre a campanha eleitoral para presidente nos Estados Unidos (EUA), fiquei surpreso com o carisma e simpatia que o candidato democrata Barack Obama realiza sua campanha.
O slogan da campanha do democrata é “Change”, “mudança” em português. Em seus discursos acalorados, cheios de pessoas aplaudindo e gritando a cada frase dita pelo candidato negro, me recordo da campanha do presidente Lula em 2001.
Não me refiro às pessoas de Lula e Obama, nem de suas biografias políticas, que são muito distintas. Mas sim da propaganda política, da campanha eleitoral. Vamos aos fatos: em 2001, Lula dava uma imagem de bom moço. Prometia não mudar a política econômica atual do país, mas comprometia-se à mudança. Uma verdadeira revolução social no Brasil, isso sem falar de seu carisma no país.
Barack Obama faz o mesmo. O candidato promete “to change” as políticas sobre o petróleo, o meio ambiente, as ocupações no Iraque e no Afeganistão, o sistema de seguro de saúde americano, ou seja, assegura-se que os EUA vai mudar com sua vitória nas urnas, uma verdadeira revolução. Conquistou a simpatia do mundo, ao contrário de seu rival republicano John Mccain.
Sou bem cético em relação à candidatura de Obama, tomei a vacina no final do ano de 2001, a vacina política. Não creio que os EUA vai mudar de uma hora para outra, ainda mais com essa crise econômica mundial. Mas torço por ele, afinal, o país que Obama quer representar significa muito para o mundo, quer gostemos ou não.

FELIPE CÉSAR

Homem e internet: um relacionamento que deu certo

Ao navegar pela internet, nos ‘orkuts’ da vida, e-mails, chats e blogs, vejo que a comunicação eletrônica evoluiu mais rápido que a comunicação pessoal.
As pessoas, e até eu (quem diria), se ‘soltam’ ao escrever mensagens na rede. A cautela que o ser humano possui ao falar pelo telefone, ou no “face to face”, desaparece no entreter da internet. Diria que é um fenômeno novo, mas não sei dizer o nome desse fenômeno.
Será que nós, ao escrever uma mensagem para alguém, seja no celular ou na internet, perdemos a timidez porque estamos em frente a uma máquina? Será que estamos confundindo o relacionamento humano de tal forma que nos relacionamos com nosso computador?
Não sei o que está acontecendo conosco, mas sei que estamos à beira de perder o contato de um para o outro. O sentimento de amizade e fraternidade está sendo, aos poucos, substituído pelo amigo virtual e irmão eletrônico. Cabe a nós medirmos os limites do prazer eletrônico, saber a hora de desligar o estabilizador, e dar um abraço naquela pessoa que temos muita consideração, afinal, a única coisa que vamos carregar na ida para o outro mundo são as lembranças, e não a caixa de e-mails ou depoimentos do Orkut.

AO PROFESSOR JOÃO

A morte não tem hora nem lugar
pode ser de dia ou de noite
ela está sempre à espreita
esperando o momento certo para levar-nos daqui
uma hora dessas, o Professor João está tomando um belo cafezinho, ou uma cervejinha, e só observa
olhando pela janela e nos vendo
Sei que não foi sua escolha nos deixar Professor, muito menos sua família
Mas sei que você está ao nosso lado, nos ajudando a suportar a dor da perda
Você se foi, mas seu filho em breve chegará
e sei que ao vir ao mundo, você vai plantar seu sorriso nos lábios dessa criança
até breve Professor, e guarda a minha bem gelada

Felipe César

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Verissimo

Esperando o fim

Como você deve ter lido, o mundo pode acabar por estes dias. O tal acelerador de partículas com que pretendem recriar o nascimento do Universo já está em funcionamento e uma das conseqüências improváveis mas possíveis do experimento é que ele crie um buraco negro que nos engolirá, você, eu e toda a vizinhança. Se você está lendo isto é sinal de que ainda não aconteceu, mas acho que devemos nos portar como se o fim estivesse próximo. Eu, por exemplo, já suspendi o pagamento de todas as minhas contas, mas você pode tomar medidas mais nobres - e, no caso de haver vida depois do buraco, mais rentáveis aos olhos de Deus - como fazer a paz com seus desafetos, confessar seus pecados e devolver seus CDs emprestados.
E tente ver o lado bom da coisa. A Terra desaparecer num vácuo será terrível, claro. Por várias razões, e não apenas porque ninguém saberá como termina a novela. Mas pense em como a possibilidade da catástrofe torna insignificante coisas como os seus problemas de pele ou a má fase do Internacional. Você perderá a vida mas ganhará uma noção clara da importância relativa das coisas, mesmo que seja por pouco tempo.
Na hora de se redimir das suas calhordices para enfrentar o fim do mundo, no entanto, é importante ter cuidado e não fazer como o dr. Crispin, que quando sentiu que seu fim se aproximava reuniu a família em torno do seu leito de provável morte e confessou tudo, tudo. A amante, a outra família que sustentava com privações da família legítima, tudo. A quase viúva, compungida, perdoou o dr. Crispin e rezou por ele. Mas aconteceu o seguinte: o dr. Crispin não morreu. Viveu mais quinze anos. Quinze infernais anos, durante os quais o mínimo que ouvia da mulher era “Foi a minha reza que te salvou, cretino”, e os filhos lhe viravam a cara. Prepare-se para ser tragado pelo buraco negro, portanto, mas sem esquecer que é tudo conjetura, que nem os cientistas sabem o que o acelerador vai produzir e tudo pode terminar num humilhante traque, e com você obrigado a dar explicações embaraçosas (“Não é verdade que eu faço xixi na piscina”).
Mas não há por que não aproveitar a perspectiva do fim do mundo para fazer, ou pelo menos propor, o que sempre quisemos fazer, antes que seja tarde. Tudo que a cautela, a preguiça ou o senso de ridículo, sem falar na moral e nos bons costumes, nos impediam de tentar. Estou preparando um e-mail que circulará entre alguns nomes escolhidos (não os citarei para evitar ressentimentos) e que começará com considerações filosóficas sobre os tempos e a moral, e como tempos extraordinários devem apagar barreiras que inibem e separam. Relembrarei outros tempos em que a perspectiva do desastre afetou o comportamento humano, como os frenéticos anos 20 e 30, e citarei o boato, nunca desmentido pelos que participaram, da orgia terminal no Titanic a caminho do fundo. Jurarei não contar nada do que se passar entre nós depois, não por discrição mas por absoluta falta de sinais vitais. E terminarei com o nome do motel, a data e a hora para o nosso encontro, advertindo que o choque de partículas que detonará o mundo pode acontecer a qualquer minuto e não teremos muito tempo. Se aparecerem só três - ou, vá lá, duas - terá valido a pena.
FONTE: OESP - 14/09/08

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

CLÓVIS ROSSI

"Fast-food" político (ou jornalístico)

SÃO PAULO - Sarah Palin, a candidata a vice na chapa do republicano John McCain, parece estar fazendo percurso inverso ao de Barack Obama, o candidato democrata. Obama saiu de semidesconhecido no início do ano para semideus ao vencer as primeiras primárias, para voltar à Terra agora.
Palin também era desconhecida, mas, em vez do endeusamento, sofreu a satanização por mil problemas que o leitor certamente terá acompanhado no belo trabalho do pessoal da Folha que está nos Estados Unidos. Bastou um discurso, no entanto, para passar de eventual lastro a um ativo para McCain."Eletrizou" a convenção republicana, diz o "Washington Post". Toda a mídia que consegui ler ontem vai mais ou menos por aí.
Posso estar enganado, mas temo que a cultura "fast-food" que ganhou o mundo esteja contaminando perigosamente o jornalismo. Ou então é o público em geral que muda de humor de um momento para outro, sem que fatos marcantes estejam na origem da mudança, ao contrário do que acontecia em tempos menos céleres, de informações menos instantâneas.
Não é fenômeno restrito aos EUA. Nicolas Sarkozy elegeu-se presidente da França há um ano e meio, tratado como um misto de Charles de Gaulle com Napoleão Bonaparte, dois dos símbolos da "grandeur" da França eterna.Em meses, seu prestígio já estava pouco acima do rés-do-chão, apesar de sua hiperatividade e de nenhum crime no período. Idem para Gordon Brown, premiê britânico, transformado de solução em problema em muito menos tempo ainda.
De duas, uma: ou os fatos são mesmo velozes demais para que os políticos os processem de forma a adaptar-se a humores rapidamente mutantes, ou nós, jornalistas, estamos correndo demais para emitir juízos de insustentável leveza no tempo. Você decide.
FONTE: FSP - 05/09/08

MELCHIADES FILHO

Grampo legal

BRASÍLIA - Ainda que o futuro possa lhe reservar algum tipo de constrangimento, o governo só tem a comemorar com a escandalização do uso de escutas telefônicas. Confira o que de concreto ocorreu desde o começo das denúncias de desrespeito às liberdades individuais e das reações indignadas:
1) Foi escanteado o delegado que pretendeu investigar os negócios de Daniel Dantas, as relações íntimas do empresário com o Planalto e o acordo de indenização que permitiu ao governo levar adiante a idéia de criar a supertele nacional.
2) A Polícia Federal repaginou a Operação Satiagraha. Fechou foco nos indícios de fraude financeira do Banco Opportunity e esqueceu outras ambições do inquérito original, como tráfico de influência e a fusão da Brasil Telecom com a Oi.
3) Dantas e seus principais assessores saíram da prisão. Não têm mais motivos para abrir a boca.
4) Lula conseguiu nomear o quinto conselheiro da Anatel para dar o voto de minerva em favor da BrOi.
5) Foi afastado o diretor que construiu a "PF republicana", aplaudida por não discriminar investigados -o que possibilitou que o irmão do presidente caísse num grampo pedindo "dois pau pra eu".
6) A pretexto de impedir exageros de arapongagem, a PF recebeu ordens para tratorar a corporação e centralizar a inteligência. A apuração do dossiê produzido na Casa Civil contra FHC foi abandonada.
7) Um ex-funcionário de Dantas assumiu o comando da Abin.Resumo: o Planalto não só preservou a negociação (e os negociadores) da BrOi como diminuiu a possibilidade de voltar a ser incomodado por escutas telefônicas.Judiciário, Legislativo e sociedade civil exigiram o direito à privacidade. Com a degola de Lacerda e Protógenes, Lula garantiu o dele.
Talvez esteja aí a explicação para a reação enérgica e rápida de um presidente que costuma defender os colegas pilhados em atos ilegais e recomendar paciência nas crises.
FONTE: FSP - 05/09/08

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Verissimo

Enquetes
O que você pensa sobre o uso de algemas?
- Acho que depende. Há circunstâncias em que o uso de algemas se justifica, outras não.
- Por exemplo?
- Bom, tomemos o meu caso. Eu tenho sempre um par de algemas à mão, o que não significa que vá usá-las. Na hora é que eu decido. É uma coisa muito subjetiva. E depende muito do tipo da pessoa, claro. Do subjugado.
- Você estuda o subjugado antes de decidir.
- Não é uma questão de estudar, porque muitas vezes nem dá tempo. É preciso decidir logo que forma de submissão será usada, para não se perder tempo. E muitas vezes o próprio subjugado é que pede.
- O quê? O subjugado tem escolha?
- Às vezes. A maioria gosta de ser surpreendida.
- Não sei se eu estou...- É como bolinha japonesa. Você precisa ter sensibilidade para saber se é caso de sugerir bolinhas japonesas ou não. Mas se ele pedir bolinhas japonesas, então já é meio caminho andado, por assim dizer.
- Bolinha japonesa?!
- Ou chicote. Ou cera quente. Ou o cone do Marques.
- Espera aí. Acho que está havendo um mal-entendido...
- O cone do Marques muita gente nem sabe que existe. Você precisa propor, mostrar como funciona e perguntar se o cara prefere com ou sem estrias.
- Obrigado.
- Quanto às algemas, o mais prático é sacudi-las na frente dele para ver qual é a reação. Se ele disser “Sim, sim!”, você prende os pulsos dele na cabeceira da cama com as algemas e...
- Obrigado!
Que novas modalidades devem ser aceitas nas Olimpíadas, na sua opinião, para aumentar as chances de o Brasil ganhar medalhas de ouro? Assinale quantas quiser.
( ) Futivolei
( ) Frescobol
( ) Dama
( ) Par ou ímpar.
( ) Pauzinho (também chamado Porrinha)
( ) Basquete de escritório (ou bola de papel ao cesto)
( ) Pebolim (ou Totó)
( ) Bola de gude
( ) Buraco (ou Canastra, ou Biriba, ou Mico Preto, ou Burro em Pé)
( ) Cutucar abacateiro (com vara)
( ) Bater figurinha
( ) Virar bolachas de chope com um golpe (e pegar no ar)
( ) Salto a distância sobre fossa aberta
( ) Sinuca
( ) Botão
( ) Ginástica orçamentária (para pagar as contas)
( ) Cinco Marias
Na próxima eleição para vereador, baseado na propaganda da TV e de acordo com seus princípios políticos, você definitivamente NÃO votará em candidato que
( ) se pareça com aquele seu tio que era kardecista mas torturava gato
( ) fique olhando para a câmera como se acabasse de ser flagrado fazendo xixi nas plantas
( ) diga “não obstante”
( ) pisque muito
( ) prometa a paz no Oriente Médio
( ) apareça com a mãe ou com o cachorro
( ) toque O Sole Mio no serrote
FONTE: OESP - 31/08/08

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Denis Lerrer Rosenfield

O bem

Você quer que o Estado determine o que você deve fazer? Você pensa que o Estado sabe melhor do que você o que é o seu próprio bem? Você acha que o Estado sabe escolher melhor do que você o que são os seus valores morais e pessoais? Assim colocadas, essas perguntas remetem a questões centrais de filosofia moral, que acarretam conseqüências políticas das mais relevantes. No entanto, poderia também aflorar uma outra questão, relativa à sua atualidade, como se fosse um mero problema teórico, sem importância para a vida de cada um. Engana-se quem pensa assim.
Gradativamente, o Estado brasileiro, em suas várias esferas, está-se impondo cada vez mais em detrimento das escolhas individuais e, sobretudo, de considerações morais, que deveriam nortear a subjetividade de cada um. Trata-se da autonomia que cada um tem de decidir por si mesmo, exercendo uma discriminação racional daquilo que é melhor para si. Tem ocorrido freqüentemente uma suposta coincidência entre o que o indivíduo considera para si o bem e o que o Estado lhe apresenta enquanto tal, como se o politicamente correto fosse o caminho que permitiria essa identificação. Há aqui uma armadilha.
O Poder Executivo, em particular, interfere progressivamente na vida de cada um, seja por atos administrativos como decretos, portarias, resoluções e instruções normativas dos mais diferentes tipos, seja por medidas provisórias, seja ainda por projetos de lei que vão na mesma direção. Por exemplo, uma alteração, via administrativa, de uma alíquota do Imposto de Renda tem incidência direta nos rendimentos individuais e familiares, como se o Estado soubesse fazer melhor uso dos bens particulares. Ocorre uma transferência de bens materiais, de propriedades, que surge travestida de uma justificativa de ordem moral, ancorada na concepção de que o Estado sabe moralmente melhor do que qualquer um o que é o seu bem próprio. O Incra, por sua vez, determina, em lugar dos assentados, o que é melhor para eles, interferindo diretamente no seu cultivo e, em última instância, em sua capacidade individual de escolha, como se um assentado fosse um tolo que deveria apenas seguir as diretrizes desse órgão estatal e dos movimentos ditos sociais. Assim, o cultivo de eucaliptos é proibido pelo Incra porque contraria as suas orientações, independentemente de que ofereça melhor rendimento aos assentados do que outros cultivos ou lavouras. Por que não poderia um assentado escolher o cultivo que lhe dê maior renda e usufruir seus resultados?
Tal “normalidade” não surge como um tsunami, mas em volumes crescentes, que vão ganhando consistência e poder. O caso da saúde é particularmente revelador. Em nome dela, há propostas de aumentos de contribuições, restrições ao fumo, mesmo em recintos que afetam somente os que usufruem o ato de fumar, à ingestão de bebidas alcoólicas ou à publicidade de medicamentos. O Estado apresenta-se como o grande patrocinador da saúde, quando está patrocinando somente a si mesmo. E o faz em nome do bem de cada um. Quem lhe confere esse poder?
Observe-se que, em nome da saúde, há projeto em curso para ressuscitar a CPMF, fortemente rechaçada por toda a população brasileira. Como os brasileiros são, hoje, contrários ao aumento de impostos, este aparece disfarçado de figura moral do bem de todos. A moral surge como justificativa de um simples acréscimo da arrecadação tributária! Da mesma maneira, por que deveria uma autoridade governamental banir o fumo em locais especialmente destinados a isso, sem afetar os não-fumantes? Não sabe cada um discernir o que é melhor para si, sem o auxílio da bengala estatal? Por que deveria o Estado determinar a “lei seca”, graças a uma nova regulamentação apresentada com estardalhaço, como se fosse a salvação da saúde nacional? Por que o Estado deveria regulamentar a publicidade de medicamentos de livre compra em farmácias? Se a compra pode ser feita sem receita, onde estaria o seu dano para a saúde? Amanhã, vai o Estado legislar ainda mais no lar de cada um, como já começa a fazer? Onde reside o limite, se o solar da casa já foi transgredido? Cabe ao Estado informar sobre os efeitos nocivos de determinados hábitos para a saúde pessoal. Não lhe cabe tomar o lugar da escolha individual.
Levemos esse argumento ao seu extremo. Consideremos que a ingestão de colesterol e de gorduras saturadas fazem mal à saúde. Pesquisas científicas referendariam essa avaliação. Seguir-se-ia daí que seria função do Estado decidir o que cada pessoa deveria, por dia, tomar de sorvete ou comer de carne? Os indivíduos não poderiam tomar sorvete ou comer carne além de uma determinada quantia? Haveria punição para os transgressores? Assim apresentada, a questão parece absurda, porém ela é, em seus efeitos, terrivelmente verdadeira. Não faltam, inclusive, pseudopesquisas que procuram justificar “cientificamente” essas medidas. Na verdade, a sua justificação reside numa determinada noção do bem de natureza propriamente política, estatal, que se reveste de científica. Séries estatísticas, por definição, podem ser feitas de quaisquer coisas, bastando relacioná-las, sem que daí siga necessariamente uma relação causal. Tomemos o caso da proibição de ingestão de bebidas alcoólicas por condutores de veículos. A redução da mortalidade nas ruas e estradas tem sido atribuída a essa lei. A correlação estabelecida se faz entre a nova lei e a redução da mortalidade. Por que não uma outra correlação, entre a fiscalização rigorosa da aplicação da lei, que poderia ser perfeitamente a anterior, e a redução da mortalidade? Se afrouxar a fiscalização, haverá provavelmente um aumento de acidentes automobilísticos, apesar da lei seca. No entanto, quando isso vier a ser comprovado, o efeito midiático buscado já terá sido atingido: o Estado sempre sabe o que é melhor para o indivíduo!
Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br
FONTE: OESP - 01/09/08

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Muito além dos grampos
SÃO PAULO - Eu desconfio muito dos veementes, dizia Nelson Rodrigues, ele próprio o mais hiperbólico dos nossos escritores, a quem nunca faltou, como tempero da vocação trágica, o veneno da ironia. E como toda unanimidade não é apenas burra mas sobretudo perigosa, desconfiemos dos veementes.
No caso, dos que estufam o peito para nos alertar que o Estado de Direito está sob ameaça, o que tem ocorrido sempre que alguém da turma da cobertura vai preso. Quantos condenados existem hoje no país que já cumpriram sentença, mas seguem em cana? Alguns milhares. E quantos mofam no xilindró à espera de julgamento, em prisão temporária ou preventiva? Estima-se que 30% da população carcerária, algo como 150 mil pessoas. Quem se escandaliza? Nem todos têm a mesma opportunity perante o STF. Foi preciso que os arbítrios da polícia chegassem ao topo do edifício social para que os arautos da legalidade começassem a se movimentar, veementes, indignados. Em pulso de preto, algema nunca foi abuso, mas pulseira de luxo. Está certo Joaquim Barbosa quando diz que certa elite monopoliza a agenda do Supremo.Sim, é grave, é gravíssimo o grampo contra Gilmar Mendes. E também muito estranho: é a primeira vez que a revelação do conteúdo de uma escuta telefônica ilegal é boa para os dois grampeados.
Muito se falará ainda desse caso. Por ora, há coisas nebulosas e muitos interesses em jogo a serem esclarecidos. A Abin terá de se explicar. É provável que rolem cabeças.Sobre o delegado Protógenes e seus métodos, vale repetir: o inquérito que comandou é obtuso, leviano e flerta com a delinqüência em várias das suas conclusões. Tenhamos isso sempre em mente. Mas sem permitir que, em nome da boa causa contra as ilegalidades da polícia, os veementes invoquem uma hipotética ameaça institucional para preservar privilégios e perpetuar a impunidade de uma casta que vive zombeteira acima da lei, como é óbvio ululante há 500 anos.
FONTE: FSP - 01/09/08

RUY CASTRO

Algo de podre

RIO DE JANEIRO - Os colunistas sociais e as revistas de moda e de celebridades fariam bem em dar plantão às portas de Bangu 8, o presídio de segurança máxima na zona oeste do Rio em que estão hospedados o ex-banqueiro Salvatore Cacciola, o ex-deputado e ex-delegado Álvaro Lins e outros políticos e policiais suspeitos de ligação com mutretas e milícias. Com tantos bacanas sob o mesmo teto, os dias de visita -segundas e sextas-feiras- são um desfile de carros blindados e peruas "heavy metal", estas valendo seu peso em quilates. O sistema prisional brasileiro, mais afeito a abrigar pés-de-chinelo, não está habituado a receber pessoas da alta, mesmo que o dinheiro tenha entrado há pouco tempo em suas vidas e elas ainda pensem que é chique comer lagosta.
A comida que os parentes têm levado para seus presos ilustres sai dos restaurantes vips da Barra. Destina-se a compensar o boião -arroz, feijão, macarrão e músculo- que a cana serve aos coitados durante a semana. Não há nada de ilegal nisso e, de fato, deve até fazer mal mudar de dieta tão de repente.
Acontece que o serviço de inteligência de Bangu 8 detectou a presença de lagosta no menu do ex-banqueiro Cacciola fora dos dias permitidos. Não apenas isso, como suspeita que os outros presos cinco estrelas também estejam pedindo haddock e salmão todos os dias àqueles restaurantes, excedendo os R$ 100 semanais que têm direito de gastar na prisão. Ora, R$ 100 era o que eles davam de gorjeta ao manobrista quando entravam nos restaurantes pela porta da frente. O problema é se, além de a prisão não ter alterado seus hábitos alimentares, os inquilinos de Bangu 8 continuarem a gerir seus negócios e empresas, de dentro para fora do presídio. Nesse caso, há algo de decididamente podre dentro do crustáceo -e do presídio.
FONTE: FSP - 01/09/08

MARINA SILVA

Amadurecer pela raiz
NA ÚLTIMA quarta-feira, quando Joênia Carvalho Wapichana subiu à tribuna do Supremo Tribunal Federal para defender a demarcação contínua da reserva Raposa/Serra do Sol, senti um grande orgulho do Brasil.
Pensei no caminho percorrido até Joênia, primeira advogada índia a fazer uma defesa oral no Supremo, assumir simbolicamente o pleno lugar dos indígenas na nossa identidade.
Apesar de séculos de erros e de violência, que quase levaram ao extermínio de nossas populações originais, estamos no rumo certo. Só faltava assumi-lo de vez, e o relatório consistente, contundente e bem informado do ministro Carlos Ayres Britto, um marco na mediação do Estado em questões de terras indígenas, o fez por nós, com muita grandeza. Depois dele, não há como não entender as razões para assegurar aos índios seus territórios originários. Por outro lado, será difícil argumentar a favor da pretensão de assimilá-los à força, para atender a interesses circunstanciais.
Naquela sala podia-se ver o recorte bom de um Brasil democrático, em que as partes de um conflito de mais de 30 anos submetiam-se à Justiça para dirimi-lo, em vez de apelar a desmandos de terra sem lei.
Não há, por enquanto, vitória de nenhum dos lados. Ambos devem se empenhar para evitar um clima de confronto ou provocações que tentem instalar o caos com o objetivo de pressionar o julgamento.
Aliás, fazê-las seria um equívoco, revelador da dificuldade de perceber o patamar de qualidade estabelecido pelo relator, para aquém do qual ninguém poderá mais recuar. Seu voto não foi contra uma das partes, foi em favor de um conceito de nacionalidade, no qual cabe toda a diversidade de que somos formados e o respeito devido a cada uma das partes que a compõem. Saí do STF sentindo-me parte de um país maduro, mas visto não a partir da madurez do fruto. É um amadurecimento pela raiz. A raiz fincada na terra que alimenta e dá segurança. Não é à toa que os índios são uma de nossas raízes, assim como não deve ser à toa que nossa dificuldade para aceitá-los como parte de nós mesmos se expresse quase sempre em disputas pela terra.
É um engano pensar que poderemos sobreviver à destruição de nossas raízes. Basta olhar a triste e pobre periferia das cidades, retratos da desagregação e da humilhação social e cultural de nossas raízes negras e índias. Os descendentes dos desterritorializados originais. Ainda bem que começamos a entender que a determinação de mudar este destino de injustiças nos faz, a todos, brasileiros melhores e pessoas mais conciliadas com sua condição humana.
FONTE: FSP - 01/09/08

Claudia Costin

O Estado e a violência

Em matéria recente sobre diagnósticos e propostas de campanha para as eleições deste ano, o Estadão comenta a contínua queda dos índices de homicídios na cidade de São Paulo. Os números são surpreendentes: passamos de 52,58 mortes por 100 mil habitantes, em 1999, para 14 no ano em curso. A melhoria dos índices, comemorada pelo governo federal como resultante da melhoria da economia e pelo governo estadual paulista como fruto do esforço em aprimorar o desempenho das polícias, é conseqüência, na verdade, de múltiplos fatores, que certamente incluem esses dois. A pobreza diminuiu, a classe média aumentou, assim como o emprego formal, e a polícia conta, de fato, com instrumental melhor para sua atuação.Esta melhoria merece ser comemorada, mas deve trazer, como bem mostra a matéria do jornal, um aprofundamento da análise que permita uma intervenção pública mais efetiva. Há uma regionalização do crime, em que bairros com pior infra-estrutura são os que apresentam maior número de mortes violentas. Outras formas de violência, como roubos, furtos e agressões, prosseguem a taxas elevadas. Também prospera o tráfico de drogas, que sustenta o crime organizado. Aqui, a matéria enfatiza o papel das prefeituras em prevenção, especialmente combatendo a existência de guetos de pobreza e desigualdade.
No mesmo dia em que saiu a matéria do Estadão, noticiava-se que 13 pessoas ficaram feridas, entre elas uma criança de 11 anos, depois que uma granada explodiu na saída de um baile funk na Favela de Antares, no Rio de Janeiro. A explosão teria sido causada por um traficante que, dançando com o artefato na mão, deixara a granada cair acidentalmente. Em conseqüência, outros responsáveis pelo tráfico o condenaram à morte.
Na verdade, o problema da violência exige uma abordagem que integre diferentes políticas públicas e níveis de governo. Comecemos pelo fator mais simples: há fortes evidências de que o crescimento econômico tem forte impacto sobre a violência e o crime. Não é por acaso que os países mais pobres do mundo, como mostra Paul Collier em seu excelente Bottom Billion, são os mais sujeitos a guerras civis - 73% da população dos países que reúnem os 980 milhões de pessoas que se tornaram aprisionadas na pobreza, segundo o autor, esteve recentemente em guerra civil ou ainda está. Quando não se tem esperança de um futuro melhor, a violência pode parecer um caminho interessante e mesmo uma oportunidade de negócio e poder.
Além da economia, o investimento em educação gera possibilidades de reverter o quadro de “guerras urbanas”, em especial se a educação puder ser percebida pelos mais pobres como de alta empregabilidade. Nesse sentido, chama a atenção relatório do Centro Paula Souza que demonstra que seus formandos em cursos superiores de tecnologia apresentam 92% de índice de empregabilidade nas áreas em que estudaram e os de ensino médio profissionalizante, 86%. Há uma demanda importante por esse tipo de profissional e aumentar a atuação do poder público nesse segmento faz muito sentido.
A política cultural pode contribuir também, ao ampliar as percepções sobre fontes de lazer, não as restringindo ao clássico boteco do fim de semana, causa principal dos conflitos com morte entre jovens de sexo masculino. Mas a cultura ajuda inclusive a tornar menos restrito, e potencialmente menos sujeito à violência, o uso do tempo livre dos jovens de classe média. Falta de acesso à cultura pode ser um dos fatores que levam alguns jovens de elite a associar prazer apenas com velocidade, brigas, humilhação e agressões a prostitutas ou empregadas domésticas, ou consumo de substâncias alucinógenas. O contato com as artes, ao mobilizar energias criativas de jovens de diferentes segmentos sociais, seja para o usufruto ou para o protagonismo cultural, pode ser um elemento importante na prevenção de violência. Os esportes desempenham papel assemelhado. Crianças e jovens que, após a escola, podem praticar, com regularidade, esportes que permitam que se destaquem e obtenham um lazer agradável são, comprovadamente, menos sujeitos ao recrutamento do narcotráfico.
Mas há algo de muito concreto que prefeitos de megalópoles podem fazer para eliminar focos de violência associados ao crime organizado: garantir uma forte presença do Estado em áreas onde hoje existe um poder paralelo a fornecer “serviços públicos”, como a Máfia fazia em seus áureos tempos. Traficantes em diferentes capitais do País cuidam das viúvas, oferecem emprego, lazer (como o baile em que a bomba explodiu por descuido) e poder à juventude e autorizam, se conveniente, a entrada do poder público para vacinar as crianças, de ONGs ou igrejas que aceitem a regra do silêncio ou mesmo se ponham a serviço dos grandes chefes. Isso não pode ser aceito! O Estado tem um papel a cumprir e não pode conviver com a existência de territórios sem lei.
Nesse aspecto, Bogotá nos dá um exemplo a ser copiado. No combate aos narcotraficantes, fez uma intervenção em áreas por eles controladas, instalando ali bibliotecas-modelo, escolas modernas construídas e geridas por organizações sociais, centros desportivos e culturais e, naturalmente, presença visível e atuante da polícia.
É fundamental não tolerar essa lógica perversa da violência que destrói vidas e dissemina insegurança. E o enfrentamento dessa visão distorcida demanda a promoção de uma ética do esforço, o respeito às leis e regras sociais básicas, a valorização do trabalho do policial (que aparentemente não ousamos fazer, por associarmos essa idéia à ditadura) e o investimento em políticas públicas integradas, em especial uma educação de qualidade que promova empregabilidade e autonomia.
Claudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita e professora do Ibmec-SP, foi ministra da Administração Federal e Reforma do Estado e secretária da Cultura do Estado de São Paulo
FONTE: OESP - 01/09/08

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

BARBARA GANCIA

Foi uma Olimpíada para esquecer
ALÔ, CARLOS ARTHUR Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro! Alô, Orlando Silva de Jesus Júnior, ministro dos Esportes! Alô, Ricardo Teixeira, presidente da CBF! Agora que já estamos quase nos finalmentes, gostaria de saber qual foi, para cada um dos senhores, o momento mais marcante desta Olimpíada de Pequim.
Terá sido, senhor Nuzman, aquele instante mágico em que a atleta Fabiana Murer tentou obstruir o salto da competidora chinesa? E já que estamos aqui, por favor, esclareça: com tantos aspones enviados pelo COB a Pequim (nossa delegação viajou com 277 atletas e 200 não atletas), não sobrou ninguém para zelar pelas varas de salto da Fabiana?
Mas, voltando à pergunta sobre o momento marcante da Olimpíada, o seu, excelentíssimo ministro Orlando, terá sido a brilhante atuação do saltador Jadel Gregório, que não conseguiu nem mesmo igualar suas próprias marcas do ano? Ou quem sabe o senhor tenha gostado mais da empolgante disputa das meninas da ginástica na competição por equipes? Não? Então que tal a atuação sem igual de Thiago Pereira em todas as provas de nado de que participou ou talvez a magnífica exibição do judoca João Derly na luta histórica contra seu arqui-rival dentro e fora dos tatames, o judoca português Pedro Dias?
E o presidente da CBF, o que será que ele levará para sempre do lado esquerdo do peito? A extraordinária demonstração de fair play da seleção diante dos argentinos ou a impecável atuação do Ronaldinho Gaúcho frente à Nova Zelândia -que fez todos os pseudocronistas esportivos falarem na "volta dos bons tempos"?
Se ainda fosse uma competição de contar ovelhas ou de bungee jump, a gente entenderia tamanha empolgação contra uma Nova Zelândia, não é mesmo, senhor Teixeira?
Tenho certeza de que o senhor e seus colegas de COB e de Ministério dos Esportes concordam comigo.
Concordam que esta foi uma Olimpíada para esquecer. Que não adianta investir apenas em atletas de ponta, como também não adianta mudar de idéia no meio do caminho.
Mas algo me diz que os senhores não ligam para o que vão dizer da atuação do Brasil em Pequim.
Vivemos em um país em que a palavra "profissionalismo" é interpretada de acordo com a lua do freguês.
O pessoal acha normal o João Gilberto atrasar em uma hora e meia um espetáculo para mais de mil pessoas por conta da ingestão de um bife, mas reclama quando alguém lá em Pequim perde a vara da Fabiana.
Se toda a dinheirama gasta pelos Correios, Caixa Econômica etc. tivesse sido transformada em ouro olímpico, duvido que o clima fosse de tamanho desencantamento.
Escrevo na quinta-feira, antes das finais do vôlei masculino e feminino. Mas já dá para afirmar que, se tivessem pintado uns ourinhos a mais na bagagem de volta da delegação brasileira, estaríamos todos agora falando sobre as chances aumentadas de o Brasil vir a sediar uma edição dos Jogos Olímpicos. Do jeito que está, ao menos por enquanto, aposto um picolé de limão como o assunto vai ficar em banho-maria. Afinal, como é que um país sem política esportiva (de longo prazo) definida e funcionando pode ousar querer sediar uma Olimpíada, não é mesmo, senhores?
FONTE: FSP - 22/08/08

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

RUY CASTRO

Descompasso

RIO DE JANEIRO - De 1973 a 1975, morei fora do Brasil. Não porque fosse obrigado, mas a serviço mesmo, numa revista em Portugal. Nesses três anos quase completos, vim duas vezes ao Rio, de férias. Mas férias são férias, e não me preocupava em tirar o atraso sobre o que acontecera na minha ausência. Com isso, coisas importantes ficaram em branco para mim -porque ainda não existiam quando fui embora e já tinham acabado quando voltei de vez.
Uma delas foi o Secos & Molhados. Em Lisboa, ouvia falar de um grupo musical andrógino em voga no Brasil, mas não tinha idéia do que significava. E continuei sem ter porque, quando voltei, eles já se tinham desfeito. Ney Matogrosso, claro, revelou-se individualmente; ouvi-o e fiquei seu fã.
Outro que foi do apogeu à queda na minha ausência foi Raul Seixas. Todas as canções que fizeram a sua glória surgiram no período. Ou em parte dele, porque, quando cheguei de volta, ninguém mais parecia saber que ele existia. E assim continuou até sua morte, em 1989, quando, ato contínuo, Raul foi promovido a sacerdote, profeta, deus etc.
Para se ver o risco de se passar algum tempo fora. Um amigo meu marchou para o exílio em 1969 e, quando voltou, dez anos depois, causava certo desconcerto em sociedade ao dizer coisas como "é uma brasa, mora", "fulana é duca" e "mamãe passou açúcar ni mim", que já não se usavam há séculos.
Estou contando isto porque, num único mês em que andei pelas estranjas, em junho último, houve uma operação chamada Satiagraha, envolvendo figurões em tramóias, propinas e subornos. A Polícia Federal prendeu um banqueiro e uma fieira de bagrinhos. Antes que eu voltasse, a maioria já estava na rua. E, na semana passada, foi solto o último preso. Mais um pouco, e eu juraria que a operação não existiu.
FONTE: FSP - 20/08/08

CLÓVIS ROSSI

Visita ao país dos ricos mais ricos

SANTANDER - Já tratei recentemente, neste espaço, da lenda da queda da desigualdade e dos números da miséria brasileira, explicitada em pesquisa que o Ibase (a ONG do Betinho) fez com os beneficiados pela Bolsa Família.
Faltava só visitar os ricos.
Andrés Oppenheimer ("Miami Herald", prêmio Pullitzer) se antecipou e mostra o que só pode ser surpresa para os que acreditam em duendes ou na lenda da queda da desigualdade.Vejamos os dados por ele coletados no "Informe Mundial da Riqueza-2008", preparado por Capgemini e Merrill Lynch:
1 - Os ricos da América Latina estão enriquecendo mais rapidamente que seus pares de todas as demais regiões do mundo e já acumularam US$ 6,2 bilhões em valores financeiros, sem contar imóveis e coleções de arte.
2 - Nos três anos mais recentes, os ricos latino-americanos viram suas fortunas aumentar 20,4%, enquanto os pobres árabes donos do petróleo só ficaram 17,5% mais ricos. Os norte-americanos, então, tadinhos, engordaram suas contas apenas 4,4% (essa gente ainda vai morrer de fome nesse ritmo).
3 - Em que países os ricos ficaram ainda mais ricos? Adivinhou: Brasil, claro, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores. Ah, no segundo lugar no torneio do enriquecimento aparece quem? Sim, ela, a Venezuela do "socialismo do século 21" (vai ver que é o socialismo que distribui renda para os ricos). Só depois é que aparece o Chile, que, desde a ditadura Pinochet, é o queridinho dos tais mercados.
Conclusão, algo óbvia, mas correta de Oppenheimer: "Em vez de ostentar o recorde de concentração de riqueza, a região deveria esforçar-se para ter maior número de indivíduos moderadamente ricos e muito menos pobres".
E o Brasil deveria parar de festejar lendas e misérias.
FONTE: FSP - 20/08/08

domingo, 17 de agosto de 2008

Felipe César

Os desapontamentos olímpicos
Acompanhando as olimpíadas de Pequim, é notório o nervosismo dos atletas brasileiros ao serem colocados à prova, quando o assunto é o favoritismo.
Diego Hipólito é um ótimo exemplo. No final da sua atuação no solo individual da Ginástica Artística, Diego falhou. À lembrança de Diane dos Santos nas olimpíadas de Atenas, Hipólito ficou desapontado e triste, pediu desculpas à nação brasileira.
O mesmo aconteceu com o judô, e poderá acontecer com outras modalidades em que o Brasil é favorito.
Diante deste cenário que se repete a cada quatro anos, não será a hora de questionar se os atletas brasileiros sabem se preparar para agüentar pressão? Os americanos, chineses e russos tratam seus atletas como se fossem máquinas, cobram de seus esportistas o melhor, e o melhor para eles é o alto do pódio. Não quero dizer que devemos seguir a tendência desses países, mas passou da hora de fazermos algo a respeito.
Fico possesso quando vejo a transmissão dos jogos pela televisão. Ninguém crítica nossas derrotas, coloca em dúvida a competência de nossas confederações e dirigentes, e em vez disso, o locutor agradece a cada decepção brasileira em Pequim. Não vejo absolutamente ninguém falar da incompetência do nosso Ministério dos Esportes, mas fala-se muito dos Jogos de 2016, afinal, alguém tem que ganhar dinheiro não?
Quero dizer aos atletas chororô, que tratem de levantar a cabeça e parar de se lamentar. Em vez disso, seria decente e moral colocar à tona os problemas que sofrem para treinar, dificuldades de apoio e patrocínio, e o mais importante, um programa forte do governo em relação à educação e o esporte. Os brasileiros têm que aprender a não se contentar com tão pouco e começar a lutar por melhorias, sigam o exemplo dos jogadores de basquete masculino. Escolheram não passar vergonha dessa vez.


Felipe César - 17/08/08

Felipe César

O acordo divino
Início dos tempos... o homem inexistia e a Terra era coberta pela mãe natureza, sem interferências humanas.
Deus, na sua sábia sabedoria, queria inventar algo novo, inusitado, aliás não! O Todo Poderoso queria revolucionar, criar algo tão grandioso, digno de sua grandiosidade divina.
Depois de matutar muito, surge a luz! Deus inventa o homem. Ser capaz de evoluir ao longo dos tempos, procriar e viver em harmonia com os outros seres vivos terrestres.
Ao longo dos anos, o homem cria dificuldades em relação a paz e prosperidade no planeta. Deus não tardou, tomou providências drásticas e lançou enormes castigos ao homem. Nevascas que embranqueceram todo o globo, tempestades capazes de encher todo o mundo, mas nada disso resolveu a questão. A invenção de Deus era um ser complexo e confuso.
Deus estava pensando no que fazer, quando recebeu uma visita inesperada:
- Fala aí God! Tudo na nice?
Deus: - Quem és tu?

Deus se refere a uma criatura de pele avermelhada, queimando em fogo, pequenos chifres sobre a sabedoria, bigodinho ralo, sorriso largo em um intrigante senso de humor.
- Minha graça é Diabo, mas pode me chamar de Lúcifer que é mais chique.
Deus: - O que queres aqui criatura esquisita?
Diabo: - Vim te ajudar God! Tenho a solução para seu problema.
Deus: - Não tenho problemas! Sou o criador do céu e da Terra, por que tens a petulância de achar que tenho algum problema???
Diabo: - God, God tsc tsc... Achei que vossa senhoria era mais humilde. Mas como sou compreensivo, te ajudarei da mesma forma. O homem, sua maior invenção. O Senhor não o entende como eu, aliás, eu surgi a pedido dele, na necessidade humana.

Deus interrompe o Diabo na mesma hora:

Deus: - Pare já com isso! O homem saiu das minhas mãos, não vai ser você e nem ninguém que vai vir aqui me dizer como lhe dar com o homem.
Diabo: - Com todo o respeito God, se o Senhor soubesse as necessidades e aflições do homem, não o castigaria, e sim o presentearia.

Deus resmunga, mas sabe que a feiosa criatura está dizendo algo lógico, afinal, todos os seus castigos sobre a Terra não surgiu efeito positivo sobre o homem. Então Deus decide deixar o Diabo continuar com sua fala malandra no reino dos céus. Afinal, o que Deus tinha a perder.

Diabo: - Deixe-me propor uma solução God. Por que em vez de castigá-lo, não o coloca à prova?
Deus: - Como assim?
Diabo: - Pense God. O homem tem que tomar suas próprias decisões, e assumir o efeito que essas decisões terá em sua trajetória pela Terra. O homem tem que ter a liberdade da escolha, mesmo que essa escolha seja antagônico aos seus interesses God.
Deus: - Hum... poderia chamar isso de livre arbítrio.
Diabo: - Isso God! Pegou o jeito da coisa. Mas minha ajuda tem um preço.

Deus ficou irritadíssimo com o modo que o Diabo se dirigiu a ele, o Reino dos Céus estremeceu, Deus se preparava para dizimar ali mesmo ô coisa ruim quando:

Diabo: - Calma ó Todo Poderoso, me perdoe. Sou apenas um humilde servo da humanidade, não tenho sua polidez e intelectualidade Deus, me perdoe.
Deus: - Fale logo Lúcifer, o que queres?
Diabo: - Propor um acordo. O homem vai ter o livre arbítrio, mas nós não podemos em hipótese alguma interferir na decisão do homem. Diante de sua infinita sabedoria Deus, proponho que vossa senhoria invente algo que ache que vai definir a boa decisão dos homens na Terra. E eu, em contrapartida, invento algo que possa inferir no arbítrio do homem, afim de tê-lo em meu reino após sua trajetória pela Terra. Concorda ó ser único?
Deus: - De acordo Lúcifer. Já que você contribuiu para minha melhor decisão, eu faço esse trato com você. Eu jogo sobre o coração dos homens algo que nada, mas nada neste mundo irá corrompê-lo. O homem sempre decidirá o melhor para a Terra e seus habitantes. Eu, Deus, jogo sobre o homem o Amor!

Toda a Terra de repente estremece, os rios se revoltam, os animais rugem. É lançado no planeta o amor, sentimento que tem por objetivo livrar o homem de todo o mau, fazendo com que toda humanidade pratique o bem, e sendo assim, terá seu espaço garantido no Paraíso ao lado de God, desculpe... ao lado de Deus.

Diabo: - Ok God, agora é minha vez. Não será algo tão profundo como seu Amor. Será simples, mas terá um poder avassalador ó grande Deus. Lamento, mas acho que o Senhor perdeu essa parada. Eu, Lúcifer, lanço na Terra o Dinheiro!

O capeta coloca nas mãos humanas um pedaço de papel, cujo objetivo é trocá-lo por algo que goste, ou pelo serviço de outro humano.
Deus esnoba a invenção de Lúcifer:

- Pronto Lúcifer, o acordo está feito. Lamento, mas o seu reino vai estar vazio para todo sempre, essa sua invenção não terá poder no coração dos homens, não é páreo para meu Amor. Mas será sempre bem vindo aqui Lúcifer. Quando quiser tomar um cafezinho ou jogar conversa fora, apareça!
Diabo: - Beleza God! Adorei ter feito negócio com vossa senhoria, sei que é uma divindade de palavra, honrará nosso acordo.

O Diabo vai embora, muito feliz pelo feito. Após séculos e séculos de vida na Terra, o Diabo sobe novamente ao Paraíso.
- Fala aí God! Tudo em riba?
Deus: - O que queres aqui Lúcifer?
Diabo: - Vim fazer-lhe um pedido God. Pode ser?
Deus: - Fale.
Diabo: - Será que vossa senhoria poderia me vender alguns lotes de terreno aqui no Paraíso? A rapaziada lá embaixo já não cabe mais God.
Felipe César - 17/08/08

terça-feira, 12 de agosto de 2008

VERISSIMO

O marido da contorcionista
Verissimo

Durante anos, o Carlão foi alvo de especulações e inveja. Tinha se casado com uma contorcionista, Flamínia, que nos seus tempos de circo era chamada de A Mulher sem Espinha. Flamínia conseguia morder o próprio tornozelo sem tirar os pés do chão. Especulava-se sobre o que Flamínia seria capaz de fazer no leito nupcial. E invejava-se o Carlão, beneficiário de tantas loucuras presumidas. Logo o Carlão!
“Logo o Carlão!” foi, durante anos, o bordão de todas as conversas sobre o casal e o que eles fariam na cama. Logo o pacato Carlão, que, na opinião geral dos amigos, tinha o apelo sexual de um rabanete. E as especulações sobre o que a contorcionista faria no seu parceiro sexual ganhavam um tom de espanto maior com a lembrança de que o parceiro era o Carlão, logo o Carlão. Que até se casar com a contorcionista suspeitava-se que fosse virgem. Que até se tornar o assunto preferido do grupo só era conhecido pela sua extrema sovinice. Logo o Carlão!
Ninguém chegou a pedir ao Carlão que satisfizesse a curiosidade dos amigos e contasse como era sua vida sexual com Flamínia. Ou, para não esquecer o respeito, dona Flamínia. E, diante do silêncio do Carlão, as especulações se multiplicavam. As possibilidades eram infinitas, a variedade de posições inacreditável. Para quem não recordasse ou não conhecesse o número da Mulher sem Espinha no circo, bastava lembrar que ela entrava no picadeiro carregada numa sacola de supermercado. Era tão flexível e dobrável que cabia dentro de uma sacola! E fora vendo-a morder o próprio tornozelo sem tirar os pés do chão que o Carlão decidira casar-se com ela, certamente pensando nas possibilidades e na variedade. Quem diria. Logo o Carlão, um gourmet sexual!
A imaginação dos amigos funcionava:
- Ela pode botar uma perna por aqui, a outra por aqui, segurar aqui, e com a língua...
- Ele pode dobrar ela assim, puxar uma perna pra cá, e...
Mas um dia o Carlão apareceu, sozinho e desconsolado, e sentou-se com o grupo. Tinha recém-chegado de viagem. Viajava muito. Tinha uma boa renda mas só voava de classe econômica, e quando havia promoção. E um dos amigos não se conteve.
- Carlão, não leva a mal. Mas você sabe que a gente vive especulando sobre a vida sexual, sua e da dona Flamínia. Nós...
- Eu não tenho vida sexual. A Flamínia tem.
Abriu-se uma clareira de espanto.
- O quê?
- Ela faz tudo sozinha. Não precisa de ninguém.
E já que estava disposto a contar tudo, Carlão contou que escolhera a contorcionista porque precisava de uma companheira portátil. Quando viajavam ela ia dobrada dentro de uma mala, e ainda sobrava espaço para acondicioná-la bem e protegê-la do frio do compartimento de bagagem dos aviões. Depois só precisavam cuidar para os hotéis não descobrirem que eram dois num quarto simples. E por que ele estava tão desconsolado? Onde estava dona Flamínia?
- Em Cingapura.
- Como?
- A bagagem extraviou.
Quer dizer: as coisas nem sempre são o que parecem.
FONTE: OESP - 10/08/08

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

RUY CASTRO

Tsk, tsk

RIO DE JANEIRO - Nenhuma autoridade pode prevenir que um maluco pegue o carro e o jogue contra um grupo de pessoas, fazendo um strike humano, como aconteceu na China nesta segunda-feira. Mas, no que depender de informação e planejamento, os chineses estão tentando de tudo para evitar vexames durante a Olimpíada. E o que não faltam são determinações do governo a respeito de etiqueta, comportamento e até moda.
Para os homens, foi sugerido que evitem circular de pijama pelas ruas de Pequim, hábito arraigado entre os chineses -aliás, comum também em alguns subúrbios do Rio até os anos 1950. E não adianta que sejam pijamas de alamares, estampados de dragões, e que o cidadão esteja de cueca por baixo. A medida foi tomada não por anti-higiênica, mas por antiestética.
Certas recomendações são até poéticas: "o cabelo do homem não deve cobrir as sobrancelhas, nem tocar o colarinho"; "pessoas gordas devem evitar roupas com listras horizontais"; e "ambos os sexos devem comer alho com moderação". São normas razoáveis, que até eu pretendo seguir, principalmente a primeira.
Os chineses são disciplinados e adoram cumprir ordens, mas tudo tem um limite. Os éditos proibindo cuspir na rua, por exemplo, continuam inúteis -ninguém segue. Já os protestos em praça pública podem ser feitos, desde que com tema, dia, hora, local e responsável aprovados pela polícia.Mais importante: o governo está escondendo, com muros e painéis, as partes de Pequim que considera "feias", tipo cortiços ou zonas de baixo comércio. O desfavorecido abre a janela pela manhã e descobre que está sendo emparedado por operários com proteção armada. A Pequim olímpica, que deseja impressionar o mundo, fica do outro lado do muro e não quer saber de estrangeiros fazendo tsk, tsk.
FONTE: FSP-06/08/08

CLÓVIS ROSSI

Um projeto, três modos de usar

SÃO PAULO - Cruzaram-se na segunda-feira, em Buenos Aires, três presidentes com um sonho comum, mas com maneiras de entendê-lo diferentes, uma delas bastante diferente, aliás. O sonho é o da integração sul-americana (ou, mais amplamente, latino-americana).
Os presidentes -e seus modos de sonhar o sonho- são:
1 - Luiz Inácio Lula da Silva - Não escondeu que quer fazer da América do Sul um conglomerado tão integrado quanto a Europa, nominalmente citada como "beleza". Mas essa América do Sul servirá para integrar-se ao mundo, com mais força, pelo menos teoricamente. Não por acaso, Lula lembrou que só Brasil e Argentina juntos têm 230 milhões. Poucos países abrigam tanta gente. Menos ainda contam com um setor agrícola tão competitivo como os dois sócios principais do Mercosul, fato também lembrado por Lula.
2 - Hugo Chávez - A idéia de um destino comum é idêntica. Em comício na noite de anteontem, ao lado da presidente Cristina Fernández, chegou a dizer que Argentina e Venezuela são um só país. Mas a integração funciona, na sua cabeça, como antídoto aos venenos do capitalismo. A "Pátria Grande" latino-americana integrar-se-ia a partir do socialismo do século 21. Enquanto Lula pensa em cooperação, Chávez fala em confronto.
3 - Cristina Fernández de Kirchner fica no meio do caminho. No atacado, segue o projeto Lula, desde que a Argentina tenha tempo e condições para recuperar sua indústria, dizimada, é sempre bom lembrar, não pelos Kirchner nem por políticas esquerdistas, mas pela direita.
Nas presentes condições de temperatura e pressão, se algum desses projetos tem chance de emplacar, é o de Lula. Nele cabe o de Cristina, mas não o de Chávez. Nem é juízo de valor. São fatos da vida.
FONTE: FSP-06/08/08

terça-feira, 22 de julho de 2008

Felipe César

Meu herói
Quando assisto à televisão, ou leio os jornais, não me deparo com nada novo, a não ser mais violência e tristeza, consolo e desconsolo, desespero.
A procura de algo novo, que despertasse meu sentido de curiosidade, de interesse, veio a escuridão para iluminar meu dia. Em todos os jornais, nos boletins culturais televisivos, chegou algo esperado e inesperado ao mesmo tempo: Batman.
Esperado porque há tempos aguardo o lançamento da continuação de ‘Batman Begins’, e inesperado pelo filme que assisti hoje, segunda-feira, dia 21 de julho de 2008, sessão das 15h e 15m em um shopping de São Paulo.
Nunca vi uma atuação tão perfeita de um homem sobre uma personagem dos gibis americanos. Não falo do Batman, mas de um vilão tão perfeito e insano, que enche de orgulho nosso lado sombrio da alma.
Heath Ledger interpretou um Coringa totalmente pirado, mas não incompreensível, mas frio, ou melhor, gelado, imprevisível, maníaco, psicótico, sarcástico, doido varrido e sorridente, ou seja, Coringa.
Os irmãos Christopher e Jonathan Nolan e Heath Ledger conseguiram com sucesso estampar em nossa face, a violência e o caos em que vive a sociedade hoje. Também é verdade que outros filmes já fizeram isso, mas nesse, o Coringa mostra como o homem é egoísta e metódico, e todos nós estamos inclusos nesse pacote, sem exceção. O indivíduo de cabelo verde, maquiagem branca no rosto e sorriso largo, encoraja a revelar nossa outra face, nossa outra cara.
O filme me abriu caminho para reflexão, e depois de pensar, pensar e repensar... cheguei a uma conclusão com três possibilidades:

1º- zombar da justiça como Daniel Dantas, pois todos têm seu preço, basta somente ter dinheiro;
2º- ficamos como estamos e como dizia vovó: não mexe no que tá quieto;
e 3º- pintamos o cabelo de verde e botamos pra quebrar! (é o meu preferido, mas não sou louco o bastante ou não tenho coragem o suficiente, e na impossibilidade de escolher a primeira opção por questões óbvias, só me restou a segunda alternativa).
E você? Vai ser o herói de terno roxo...?
Felipe César - 21/07/08

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Crônica de uma liberdade anunciada

FREI BETTO

NÃO HOUVE surpresa. O corruptor pau-mandado disse com todas as letras, gravadas pela Polícia Federal, que o chefe se preocupava "apenas com o processo em primeira instância, uma vez que no STJ e no STF ele resolve tudo".
Sabia o que dizia. Dito e feito, em dose dupla. O chefe entrou na lista daqueles que, para certos ministros do STF, pairam acima da lei e reforçam a nociva cultura de que, como cantava Noel Rosa, "para quem é pobre a lei é dura", mas para quem é rico a impunidade fa(r)tura.
Vale a piada do político corrupto que surpreendeu o filho surrupiando-lhe a carteira e deu-lhe umas palmadas. "Mas você também rouba!", reagiu o menino. "Não te castigo por roubar, mas por se deixar apanhar em flagrante", retrucou o pai.
Agora, nem o flagrante merece punição. Vide as imagens gravadas pela PF em que aparece a dinheirama destinada a corromper um delegado daquele órgão. O ciclo vicioso se confirma: a Polícia prende, a Justiça solta. E alguns disso se aproveitam e fogem.Ou a pena prescreve, sacramentando a impunidade e permitindo até que se candidatem a cargos públicos.
A corrupção, aliada à impunidade, de quem é filha, já indignava o autor de "A Arte de Furtar", escrito entre os séculos 17 e 18: "Se vossa casa, ontem, era de esgrimidor, como a vemos hoje à guisa de príncipe? E até vossa mulher brilha diamantes, rubis e pérolas, sobre estrados broslados? Que cadeiras são essas que vos vemos de brocado, contadores da China, catres de tartaruga, lâminas de Roma, quadros de Turpino, brincos de Veneza etc.?"Eu não sou bruxo nem adivinho; mas me atrevo, sem lançar peneira, a afirmar que vossas unhas vos granjearam todos esses regalos para vosso corpo, sem vos lembrarem as tiçoadas com que se hão de recambiar no outro mundo. Porque é certo que vós os não lavrastes, nem os roçastes, nem vos nasceram em casa como pepinos na horta".
E aponta as ramificações do enriquecimento ilícito nas estruturas de poder: "Furtam pelo modo infinito, porque não tem fim o furtar com o fim do governo e sempre lá deixam raízes, em que vão continuando os furtos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, mais-que-perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse".
Em "A Desordenada Cobiça dos Bens Alheios - Antiguidade e Nobreza dos Ladrões" (1619), Carlos García diz que a arte da ladroagem é superior à alquimia, pois do nada faz tudo: "Haverá maior nobreza no mundo que ser cavaleiro sem rendas e ter os bens alheios tão próprios que se pode dispor deles a seu gosto e vontade, sem que lhe custe mais que pegar-lhes?".E denuncia o engano em que muitos vivem, "crendo que foi a pobreza a inventora do furto, não sendo outros senão a riqueza e a prosperidade".
Padre Vieira, nascido há 400 anos, alerta em seu "Sermão do Bom Ladrão" (1655): "Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes, sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam".Sim, não temem as instâncias superiores da Justiça, pois não há o perigo de ficarem atrás das grades. Soltos, continuam a furtar o erário, e enforcam, nas negociatas, a cultura da decência, da ética e da justa legalidade.
E ainda há quem proteste por ver a mídia acompanhar as operações policiais. Quem reclama quando as viaturas cercam a favela com brucutus e "caveirões"? Reza o direito que, se o crime é clandestino, a repressão e a punição devem ser públicas, para servir de exemplo e coibir potenciais bandidos, sejam eles de chinelos de dedo ou de colarinho-branco.
Segundo Cícero, "o maior estímulo para cometer faltas é a esperança de impunidade". Enquanto o nosso Código de Processo Penal não sofrer profundas modificações, os bandidos poderão repetir em entrevistas que só temem a Polícia, porque a Justiça é cega às suas práticas criminosas.
Talvez fosse mais sensato acatar a proposta de Capistrano de Abreu e reduzir a Constituição a dois artigos: "Artigo 1º: Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Artigo 2º: Ficam revogadas todas as disposições em contrário".
FONTE: FSP - 13/07/08

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto,63, frade dominicano e escritor, é autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).