quinta-feira, 17 de julho de 2008

Dentes

Verissimo
Os dois foram colegas na escola. Amigos inseparáveis. Mas separaram-se. E um dia se reencontram. Um bem vestido, com sinais ostensivos de riqueza. O outro mal. Mal vestido, mal cuidado, mal tudo. Abraçam-se. Que coisa! Há quanto tempo! Tratam-se pelos apelidos de antigamente.
Joca e Bolão.
Você se deu bem, hein Bolão? Olhe só.
- É. O meu pai fez fortuna, eu fiquei independente. Estou bem, sim.
E você, Joca. O que aconteceu com você?
Pois é. A vida...
- Não. Não me venha com essa de vida, de culpa da sociedade. Somos indivíduos, e cada indivíduo é responsável pelo seu destino. Então você é responsável pelo seu pai ter enriquecido e eu pelo meu ter morrido e nos deixado na pior e... Seus dentes, por exemplo.
O quê?
Não vai me dizer que seus dentes ficaram desse jeito por culpa da sociedade. Você e eu começamos com os mesmos dentes, mas eu cuidei dos meus.
Porque você tinha dinheiro!
Não, não. Porque eu dei prioridade à higiene bucal e você, obviamente, não.
Olha aqui, Bolão...
Bolão levanta o livro que tem na mão.
Sabe quem escreveu este livro, Joca? Eu. Como vivo de rendas e tenho muito tempo livre, escrevo. E eu mesmo publico. Estes são ensaios sobre os filósofos do século 17. Onde sustento, por exemplo, que o pensamento cartesiano só se tornou possível porque Descartes escrevia em francês em vez de latim escolástico. A filosofia moderna é uma decorrência da linguagem. Descartes desenvolveu um sistema de argumentação abstrata porque saiu do latim para o francês, enquanto Bacon, por exemplo, não conseguiu fazer o mesmo com o inglês. Entende?
- Não.
Claro que não. Bacon e Descartes educaram-se com o mesmo latim, como você e eu estivemos nos mesmos bancos escolares e aprendemos com os mesmos professores, mas depois cada um cresceu na sua própria língua. Isto é, na sua própria cultura, no seu próprio universo de referências, na sua própria sintaxe. Mas se os dois fossem franceses, desenvolveriam o mesmo sistema de pensamento, já que eram iguais. Mas os dois não eram franceses, meu caro. Portanto não eram iguais. Um era francês e o outro era inglês. De nascimento. Não foi a sociedade que fez um francês e o outro inglês. Foi a fatalidade genética.
Mas você e eu falamos a mesma língua.
O português que nós dois aprendemos juntos equivale ao latim com que Descartes e Bacon aprenderam a pensar, na escola. Mas Descartes estava destinado a falar francês, a língua do discernimento, e Bacon condenado ao rude inglês. Eu estava destinado a transcender o meu latim para a linguagem do saber e do empreendimento intelectual, você estava destinado a transcender o seu latim para a linguagem do ressentimento e da perplexidade, a linguagem do nada. Falamos a mesma língua na escola, depois desaparecemos dentro de nossas respectivas classes e culturas, como barcos se afastando no nevoeiro.
Mas você acabou de dizer que cada indivíduo é responsável pelo seu destino.
Responsável pelo que faz nos limites da sua predestinação. E, se me recordo bem, estávamos falando de dentes. Os meus são perfeitos, os seus estão podres. E isso não tem nada a ver com dinheiro, sorte ou dinâmica social, Joca. Cada indivíduo é responsável, ao menos, pelo estado dos seus dentes.
E pelo estado dos dentes dos outros.
Como assim?
Eu não estou predestinado a quebrar seus dentes com um soco. Mas posso decidir quebrá-los. Como indivíduo, estarei decidindo o meu destino. Ou, no caso, o destino dos seus dentes.
Joca, espera um pouquinho. Vamos conversar!
Você esqueceu? Nós não falamos a mesma língua. Nenhum entendimento é possível entre nós dois.
- Espera, Joca!
FONTE: OESP - 13/07/08

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