terça-feira, 25 de novembro de 2008

A normalidade

Verissimo
O Valtão era o que se costuma chamar de “solteirão”, uma condição que sua irmã Valkíria não aceitava.
- Você precisa se casar, Valtão.
- Por quê?
- Porque não fica bem um homem da sua idade solteiro.
O Valtão tinha quase 50 anos. Entre as muitas coisas que Valkíria achava que não ficavam bem, um homem de quase 50 anos ainda solteiro era das que ficavam piores.
- Mas eu estou satisfeito assim, Val.
- Eu sei. Mas não é, não é...
- O que, Val?
- Normal.
Valkíria era casada. Com o Pereirinha que, diziam, tinha uma noiva em cada bairro da cidade e gastava uma fortuna só em transporte. Valkíria era normal. Valtão não era. Valtão precisava se casar para normalizar sua vida. Para contentar sua irmã. E para ficar bem.
- Vou te apresentar uma pessoa - anunciou Valkíria, um dia.
- Vocês vão se dar muito bem. Têm muitas coisas em comum.
- O que, por exemplo?
- Ela também gosta de cinema. Eu acho. E teatro. Adora teatro.
- Eu não gosto de teatro.
- Não sei se ela gosta de teatro, mas é uma pessoa interessantíssima. Tem renda própria e não é feia. Quer saber o nome dela?
- Não.
- Verônica. Não é bonito? Verônica. Vocês vão se dar muito bem.
- Por que você acha isso, Val?
- Porque numa coisa vocês são iguais. No que interessa. Ela também é solteirona.
Para Valkíria, mulher com quase 50 e ainda solteira também era uma aberração. Se conseguisse que o irmão e a amiga se casassem, estaria acabando com duas aberrações, por assim dizer, com uma cajadada só. E trazendo os dois para a normalidade.
O que os dois tinham mesmo em comum era que Verônica também estava cansada das pressões para se casar que sofria de amigos como a Valkíria e da família. No primeiro encontro, concordaram. Se casariam. Sem namoro, sem noivado, sem se conhecerem bem e sem demora. Desde que algumas coisas ficassem acertadas.
- Eu leio jornal na cama e durmo só de camiseta.
- Antes de tomar uma xícara de café de manhã, não falo com ninguém. Só rosno.
- Tenho horror de sol, de miúdos, de cheiro de incenso e de pagode.
- Você raspa a manteiga ou tira pedaço?
- Tiro pedaço. Você?
- Raspo. E enrolo o tubo de pasta de dente.
- Eu não enrolo, mas não tenho preconceito.
- Uma coisa: o controle remoto da televisão fica comigo.
- A não ser quando tiver futebol.
- Combinado.
Casaram-se, numa cerimônia simples na casa da Valkíria, que estava radiante. E, é claro, divorciaram-se pouco tempo depois da lua-de-mel em Porto Seguro. Valtão não sabia como contar para a irmã do divórcio. Simplesmente não dera certo. Os dois tinham hábitos de solteirões muito arraigados. Tinham tentado, mas... Valkíria compreenderia.
E, para sua surpresa, Valkíria compreendeu. Hoje em dia é normal ser divorciado, disse ela. A maioria das suas amigas era de divorciadas. Ela mesma só não era divorciada porque o Pereirinha dizia que acreditava demais na santidade do casamento e não aceitava.
FONTE: OESP - 23/11/08

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